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Nome: Claudio Justo
Idade: 32
Signo: Sagitário
Cor: Amarelo queimado
Coisas que adoro: Rock, dormir, sexo, amigos, tattoos, cinema, cerveja, música, livros, amigos, futebol, silêncio, namorar, escrever... é melhor falar das coisas que não gosto.
Coisas que odeio: inveja, ciúme, falsidade, bacalhau, Faustão, mentira e incoerência.

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20:48

Nesta manhã me encantei por uma mulher feia


Nesta manhã me encantei por uma mulher feia.

Sim, feia, de traços pouco simétricos. Sua boca, à primeira vista, parecisa ser mais larga que o maxilar e parecia fazer uma companhia íntima a seu queixo adunco. Os lábios, sem traços firmes que os emoldurassem, pareciam um inquieto mar vermelho e trazia junto consigo um nariz nem grande, nem pequeno. Talvez largo e afinado na ponta, projentando-se à frente de forma a acompanhar e surfar nos lábios logo abaixo. E aí parece que o rosto da mulher se dividiu em hemisférios distintos. Para se chegar a seus olhos, faz-se uma travessia por um espaço vazio que os separa um pouco da porção inferior da face. Os olhos eram comuns: nem amendoados, nem arregalados. Talvez pretos ou castanhos escuros e, também, um pouco afastados um do outro, formando um vazio no entre o nariz da moça e sua testa que ali se iniciava como pequena península, que culminaria num vasto oceano frontal.

Os cabelos estavam presos e não se poderia dizer se eram lisos ou anelados. Os tempos modernos permitem variações tantas que qualquer tipo se torna suspeito. Mas, apesar de não muito longos, estavam presos.

A pele era clara. Não de um branco de europeu, mas de um branco brasileiro, banhado pelo sol diário. O tipo físico era delgado, mas não como das grandes figuras da mídia. Algumas mulheres se martirizam por estar além do corpo das atrizes de TV. Esta mulher se martirizaria por estar aquém, se o fizesse. A estatura era mediana, mas o braços pareciam longos, assim como os dedos que pude ver claramente com as unhas pintadas de uma cor pastel. Trajava uma roupa comum, nem de festa, tampouco um traje doméstico.

Cruzou por minha vista esta manhã, quando vinha para o trabalho de ônibus. Olhava para a paisagem que passava nervosa pela minha janela, quando percebi um movimento diferente do cobrador que, pelos gestos que emitia, havia cometido algum erro e se desculpava àquela senhorita.

A moça sorriu timidamente um sorriso feminino, baixando os olhos e fazendo um pequeno movimento de negação enquanto colocava alguma coisa na pequena bolsa, como se, além de oferecer o perdão, oferece-se também para assumir a culpa, numa demonstração de solidariedade delicada.

Com a mão direita que vi muito bem, apanhou seu troco com um gesto delicadamente feminino, o meteu também na bolsa e rodou a catraca com a suavidade de quem não força, apenas passa. Dirigiu-se a uma cadeira vaga, lentamente, sem movimentos quadriculares, como se deslizasse pelo corredor do veículo e se assentou numa poltrona vaga, ao lado de um senhor, como se pousasse. Ali ficou.

Lembrei-me, naquele instante da flor de Drummond, em "A Flor e a Naúsea": "Uma flor nasceu na rua... façam completo silêncio, parelizem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe, suas pétalas não se abrem, seu nome não está nos livros. É feia. Mas é uma flor...".

E depois, na minha auto-piedade, tive dó dos homens que têm a coragem de dizer que alguma mulher é feia. Tive dó de mim.


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17:15

Beleza Moderna


Depois de entregar a maçã para Branca de Neve, ela se voltou para o espelho e insistiu:
- Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais bela do que eu?
O espelho então respondeu:
- Não, não existe ninguém mais bela que você. Mas...
Ela, assustada, perguntou com impaciência:
- Mas??? Mas o que?
- Bem, é que no Brasil existe um tal de Ivo Pitangui e você vai precisar de muita maçã envenenada.


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14:36

No Urologista


- Vamos lá, qual é sua queixa? - Perguntou o médico logo que começou a consulta.
- Bem doutor, é um problema do caralho. - Ele respondeu rindo do trocadilho.
- Tem sentido alguma coisa diferente nos seus genitais? - Voltou a perguntar o médico, depois de um sorriso sem graça.
- Curisoso o senhor perguntar, doutor. Realmente tenho sentido sim. Uma das minhas bolas tem ficado dolorida nos últimos dias, logo que termino de trepar com minha esposa.
- Só uma delas?
- Sim, a da direita. Sabe doutor, a direita sempre foi um problema na minha vida desde o governo militar. Eu, que sou comunista, sempre fui perseguido pelos direitistas. Hoje não suporto ouvir falar de neoliberalismo. Arrepio só de pensar nesses entreguistas.
- Certo! - Anotou o médico no prontuário do paciente, dispensando o discurso político. - A esquerda apresentou algum problema?
- Não doutor. A esquerda é ótima. Nunca tive problemas com ela. É quase uma utopia. O problema mesmo é a direita, só a direita! Eu diria que a direita está fragilizada atualmente. Ou tentando passar por um momento de auto-afirmação, querendo se mostrar. Se tem alguma coisa na minha cueca que me aperte, é a direita que dá o grito. A esquerda fica quieta e nem me incomoda.
- Eu entendo!
- Como assim, o senhor entende? Já passou por isso alguma vez doutor?
- Não, não! Só estou dizendo que entendo o que você quis me dizer.
- Ah bom!
- E o sêmen? Como ele está?
- Hoje ele está meio opaco, sombrio, sem cor. Na verdade, nos dias atuais, quando o vejo o considero como a personificação da derrota. Aliás, posso dizer que nem fede, nem cheira. A propósito, não é sêmen, é Menen. Carlos Menen! Quebrou a Argentina, aquele neoliberal hijo de una puta!
- Não, meu senhor. Estou falando do seu sêmen, do seu esperma. A porra, entende?
- Ah sim! Tá a mesma coisa...
- A mesma coisa de sempre?
- Não! A mesma coisa do Menen.
- Bem, eu preciso ver.
- Ver o que?
- O seu testículo. Deite-se naquela maca e baixe as calças até o joelho.
- Hã?
- Eu preciso verificar para saber o que está ocorrendo. O senhor pode estar com uma infecção da próstata e temos que descobrir isso.
- Próstata? Não é aquele negócio da "dedada"?
- Isso. Em alguns casos, para diagnosticar alguma enfermidade, temos que fazer o exame do toque retal.
- Ah tá. Por curiosidade, em quem o senhor votou nas últimas eleições?
- Hã?
- É... Lula ou Alckmin?
- Porque isso?
- Curiosidade. É uma pergunta simples, vamos lá.
- Eu votei no Alckmin.
- Sabia... Direitista neoliberal filho de uma puta. Eu conheço esse seu papo. É sempre a mesma conversinha. Primeiro vem com essa história de puxar nosso saco, mas depois o que vocês querem mesmo é botar na nossa bunda. Adeus!


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10:21

Estranhos conhecidos


A menina abriu um sorriso ao me cumprimentar. Não era um sorriso de satisfação ao rever um amigo querido. Na verdade, tratava-se de um sorriso sem graça, frouxo e fugaz. Abriu-se e fechou enquanto ela balbuciava alguma coisa como "oi! Tudo Bem?", mas sem a esclamação e a interrogação. Aliás, um cumprimento sem som. Relembrando agora, não passava de uma sinal que denunciasse a mim que ela me reconhecera.

De fato nos conhecíamos. Em nossas juventudes compartilhamos alguns dias, horas ou talvez apenas alguns minutos. Sei que nos encontrávamos, trocavamos algumas histórias e nada mais além disso. Mas desde sempre houve algum respeito um pelo outro. Ou, ao contrário, não tivemos tempo o suficiente para dar-nos motivos para não querermos mais nos ver.

A olhei nos olhos e sem devolver o sorriso frouxo e amarelo, balancei a cabeça afirmativamente e balbuciei alguma coisa como "olá!", sem a exclamação. Talvez mexesse a boca, talvez arqueasse as sombrancelhas. Mas é um gesto tão instantâneo que sequer gravamos nossas atitudes. Meu intuito era retribuir o reconhecimento e dizer que também a reconheci.

Amigos? Nunca! Conhecidos... Estranhos dos quais sabemos o nome.


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20:48

O Galo Cego


Ele era o rei o galinheiro. Altivo, peito estufado, a crista caída meio de lado, como se usasse um gel e um olhar inquisitor. Era um galo japonês, comprado por uma pequena fortuna. Quando da aquisição do animal, as referências eram as melhores possíveis. Ainda era um franguinho e aquilo parecia uma negócio de risco. Mas o bicho cresceu e passou a dominar o galinheiro.

Tinha pelagem viva, em tons de vermelho sangue, mesclada com um negro de breu total. Se escrevessemos a marca da Petrobrás em seu peito, graças à coloração de suas penas, desbancaria o urubu como mascote do Flamengo. Tinha o pescoço e pernas compridas, o que lhe dava certa tranquilidade nas cópulas. Ao contrário do que dizem dos homens japoneses, esse galo trazia ainda esporas longas, grossas e pontiagudas. Era uma arma samurai em cada perna, que utilizava sempre que era necessário, para defender as damas do galinheiro.

Pela manhã, quando jogávamos milho para os galináceos, ele se aquietava ao lado e esperava que cada uma das galinhas comessem o tanto que quisessem. Caso algum dos franguinhos que por lá existiam resolvesse comer antes das fêmeas, alvoroçava e partia para cima deles. Era um lord, apesar da origem oriental. Um verdadeiro gentleman!

Acordava cedo e saudava o sol com seu canto grave. As galinhas suspiravam de admiração e logo abandonavam o poleiro. Algumas iam para os ninhos, onde colocavam seus ovos e saiam em irreverente cantoria sob o olhar curioso do japa. Era de fato um galo admirável e dava conta de suas obrigações no galinheiro. O dinheiro investido, aos poucos era reposto graças aos frangos que eram vendidos. Faziam encomendas de um franguinho daquele Hércules penoso.

Foi assim durante um bom tempo. Ele lá, peito estufado, cabeça erguida, esporas armadas, plumagem que parecia penteada. Só faltava um boné da BadBoy, medalhão de Public Enemi sobre uma camiseta do Lakers e um tênis Nike, para ficar o perfeito gostosão da parada. Tinha galinha se fantasiando de arara, para chamar sua atenção.

Certo dia apareceu por lá um galo intruso. Em sua crista faltavam alguns pedaços, bem como faltavam algumas penas em seu pescoço. O peito era pouco avantajado e as pernas compridas também sem a penagem de certa parte da coxa para baixo. Das duas esporas, restava apenas uma. Um galo feio, raquítico, de penas brancas meio amareladas. O detalhe curioso é que o galo era cego de um olho. Mais precisamente o olho do lado oposto da espora que lhe faltava.

Imaginava a briga que haveria, quando este se deparasse com o galo ninja, com suas duas armas samurais. "Isso é um galo índio meu filho", ensinou meu pai. Eu entendia tanto de galo quanto de física termo-nuclear. Sabia que tínhamos um galo bom, de raça japonesa e que as galinhas viviam suspirando por ele. "E repare que é um galo de briga, vejo como está todo marcado". Continuava ensinando enquanto enxotava o intruso antes que o outro galo o fizesse.

Adiantou por dois dias. Numa bela tarde, estava tranquilo quando ouvi o alvoraçar dos bichos. O índio tinha voltado e dessa vez não houve quem o detivesse: deu de cara com o japa. Cheguei a ameaçar separar os brigões, mas quando olhei mais de perto vi as três esporas, dois bicos e um sem fim de garras e achei melhor deixar que eles resolvessem a parada deles por lá.

O nosso galo partia para cima do pobre diabo e como era muito maior que o outro, parecia se esquecer que era um alvo mais fácil de ser acertado. Suspeito também que ele achou que o intruso ficaria intimidado e peleou displicentemente. Ou era isso, eu creio que nosso galo japonês andou faltando às aulas de karatê, pois o galo índio, com toda a fúria de Tupã, lhe deu uma surra inesquecível, que me fez lembrar o depoimento do índio Tupi, em I-Juca Pirama:

Meu canto de morte
Guerreiros ouvi
Nascido na selva
Na selva cresci
Guerreiros descendo
Da tribo Tupi
Sou bravo, sou forte
Sou filho do norte
Meu canto de morte
Guerreiros ouvi.


Tive, então, a brilhante idéia de jogar água nos bichos. A culpa recai sobre os gatos, mas bicho nenhum gosta de um balde d´água na cabeça. Não deu outra, o intruso fez uso das pernas, acalmou os ânimos e se mandou. O nosso galo, cabisbaixo, voltou para o galinheiro e se escondeu atrás de um caixote.

Por lá ficou até o outro dia pela manhã. Não cantou anunciando o dia, não comeu, nada fez senão ficar encolhido, envergonhado de suas companheiras. Estas lhe olhavam desconfiadas, à distância. À tarde, novamente, o índio apareceu. Ainda com algumas marcas da batalha, mas nada que o fizesse se recolher. Era um galo atrevido e as galinhas começaram a enxergar isso nele. Tão logo chegou, algumas já se animaram tentando suprir com ele a carência provocada pela prostração do outro. Era cena da maior humilhação. Não havia mais o que fazer, senão sacrificar o samurai, antes que ele fizesse o auto-sacrifício.

A galinhas sequer deram falta dele, estavam encantadas com o galo cego, meio pelado, esguio, cicatrizado, talvez até um pouco velho e calado, mas firme e atrevido. A que tentava ser arara, agora falava convencida que era mesmo uma ave nobre, porém com penas mais escuras graças a uma anomalia genética. Ele não dava muita bola. Se divertia com elas à tarde e depois se mandava sabia Deus para onde. Só retornava na tarde seguinte.

Deconfiei dessa atitude do tal galo e um numa tarde resolvi segui-lo. Ele saia de nosso galinheiro, seguia até um muro baixo da casa vizinha, o pulava, atravessava a rua e entrava na casa em frente, que também tinha um galinheiro. Por lá dormia. De manhã cuidava das moçoilas de casa e à tarde dava conta das nossas. O cretino tinha outra família.
Um pouco chateado com a atitude das galinhas, que não tiveram qualquer piedade do grande galo japonês, decidi por fim àquela orgia. Avisei à dona do galo índio o que estava acontecendo e solicitei-lhe que desse um jeito no bicho. Pronto! Elas que se virassem para conviver com a saudade do bicho.

Ficamos sem galo por dois meses, quando um franguinho começou a por as mangas de fora. Sequer tinha esporas, mas tomava conta das fêmeas. Cresceu e se tornou tão grande e forte quanto o pai. Seus descendentes herdaram seus genes e também os do galo cego. Começava aí o reinado dos Galos Índio-Prata Japoneses.


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16:12

A Mulher de Francisco


Existirá um significado misterioso para o fato de Deus ter feito a mulher após ao homem. Parece-me, de certo modo, um arrependimento, um ato de caridade divina Dele consigo mesmo, dando-se a oportunidade de tentar outra vez. Hoje, vendo os homens transitando sozinhos, levando sonhos e escritórios na cabeça, desconfio da simples intenção de dar uma companheira ao homem. Me é claro que Deus não ficara satisfeito com o resultado final de sua obra.

Eu sua nova empreitada, arredondou as formas, acrescentou um pouco de barro aqui, tirou um pouco de lá, projetou minuciosamente os trejeitos, os gestos e os olhares. Pegou emprestado de algumas das flores, que criara para enfeitar o Éden, graça e formosura e empregou-lhes na sua nova criação. Tirou das estrelas um pouco de luz e lhe pôs à face e pintou em aquarela um sorriso mágico. O Criador se superou e fez, então, sua obra prima.

Feita de belezas e poesia, logo que pisou no Paraíso foi reconhecendo a graça de tudo à sua volta, ao contrário de seu parceiro que buscava a caça. Ela não se aborreceu. De alguma forma, ao criar tais gestos e dar-lhe beleza e formosura, Deus acabou programando-a a burlar as certezas masculinas e, banhada em sutileza, o convencer a fazer aquilo que ela desejava.

E é graças a esses dons divinos que, séculos depois da criação celestial, Marta sorri na cama ao lado de Francisco que lê irritadamente um relatório financeiro da empresa.

- Amor, o que tem nesses papéis?
- É o relatório financeiro da empresa, tenho que fechar isso até amanhã. - Respondeu Francisco irritado.
- Mas amor, você já não ficou o dia todo trabalhando para resolver esses problemas. Agora é hora de outra coisa. Vem cá, vem?
- Não posso Marta, já disse tenho que resolver esse problema. - Mais irritado ainda.
- Ah, amor... - voz melosa. Isso não é hora de trabalhar, vem cá que vou fazer aquela massagem.
- Não vai ter jeito, né? - Perguntou se virando a ela, com o papel já meio de lado e total impaciência na voz.
- Claro que vai ter, amor. Vem cá que dou um jeito em você num instante.
- Ai meu saco! - pondo a mão na testa, já prevendo uma briga que estaria por vir.
- Está doendo também amor? Quer uma massagenzinha também. Eu cuido de você todo, coração.
Ele respirou fundo, olhou para o céu como quem pede uma orientação ou paz e disse entre dentes:
- Você não percebe que eu preciso terminar isso? Que não posso ficar de namorico?
Ela então respondeu sorridente:
- Eu percebo que tenho meu amor na minha cama, estou aqui toda para ele e querendo que ele mate as vontades dele.
- Eu quero me enterrar - Disse ele, simulando um choro.
- Então vem meu homem, se enterra. - Retrucou Marta com voz sedutora, fazendo movimentos para seu lado e enrroscando suas pernas nas dele.
- Para de sacanagem, Marta!
- Nós nem começamos, meu amor. Vem cá, vem...
- Nem vamos começar. - Disse ele, levantando-se da cama e saindo do quarto com o tal relatório em direção à sala, onde passaria a noite a lê-lo.

Ela ficou inerte vendo-o sair. Segundos depois, levantou-se, foi até a porta para se certificar que ele de fato fôra para o sofá e retornou ao quarto, apagando a luz e dizendo:
- Vai pro inferno! Se vai passar a noite aqui, acordado, lendo essa merda de relatório, que pelo menos libere o melhor lado da cama.

E, enfim, dormiu.


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20:09

Loucura, loucura, loucura


O Russo me olhava. Primeiro com um olhar interessado, de quem é chamado às pressas por alguém de quem se gosta. Virava a cabeça para meu lado, como quem espera ansioso por uma resposta e aproximava a orelha. Eu, ali, de frente para ele, esbravejava em tom suave.

Eu recitava O Corvo, de Edgar Alan Poe, para o cachorro.

Não, não sou louco. Talvez até seja, mas não era um devaneio. Talvez até fosse. Mas o fato é que acordei num sábado desses disposto a decorar os 108 versos do poema. Já o havia lido uma infinidade de vezes e alguns versos já estavam mais que memorizados, precisava agora internalizar mais alguns e colocar em ordem. O fato é que foi até fácil. O processo é bem simples: repetição da primeira estrofe até provavel memorização. Depois recitá-la em voz alta, para que consiga ouvir as rimas (isso ajuda no processo de armazenamento do texto e, também, no processo de internação, caso a vizinhança resolva chamar uma ambulância). Em seguida, a próxima estrofe. Uma vez memorizada a segunda, repetia a primeira e a segunda. E assim foi se sucedendo até que tinha acabo as 18 estrofes, 108 versos e toda a minha paciência. Agora era treinar como recitar esse poema trava-língua.

Minha história com esse poema é bem singular. Me apaixonei por ele logo na primeira vez o que o li. E olha que o fiz forçado, para um estudo. O li duas vezes naquele dia. No dia seguinte, mais umas cinco. E de lá pra cá sempre o pegava vez por outra. Agora não sei porque diabos cismei de memorizá-lo. Talvez seja para recitá-lo aos cães.

Ah, era disso que falava.

Bem, depois de gravar aquelas palavras, me restava treinar as pronúncias, tempo, tons, ritmo. Na falta de melhor interlocutor - ou provavelmente na procura de um interlocutor que não me interrompesse nem que me julgasse - chamei o cão.

Russo é um cachorro burro. Um desses bichos estúpidos que é capaz de, no ato institivo de se coçar, morder o próprio corpo e rosnar para si mesmo. Uma verdadeira anta. Mas pesa a seu favor o fato de gostar de mim. Aliás, ele é tão burro que adora a pessoa que mais o castiga. Talvez seja o karma dele. Ou o meu. Quando meu sobrinho o trouxe para casa, seu primeiro ato foi demarcar território. Confundiu minha perna com o poste e parece que daquela data em diante, me tornou seu bicho de estimação. Diante disso, sabedor que ele jamais recusaria o meu chamado, disse ao vento seu nome. Não passou cinco segundo e lá estava ele, exultante, abanando o rabo como uma hélice em movimento.

Solicitei a ele que ficasse quieto. Obviamente ele não entendeu e veio em minha direção. O chinelo foi em sua direção e ele perdeu um pouco a euforia. Então ele se deitou e ficou me olhando em clara chantagem. Melhor assim. Então comecei a recitar o texto. Ele, num gesto terno, pousou a cabeça sobre as patas dianteiras e passou a me olhar. Em determinamos momentos, como se quisesse me agradar, levantava uma ou outra orelha, como se estivesse prestando atenção no que eu dizia. Virava a cabeça em minha direção e, se soubesse sorrir, estou certo que esboçaria um sorriso. Cachorro puxa-saco!

Alguns minutos depois, senti sua expressão mudar. Eu lhe falava, gesticulava de acordo com a tensão do texto, ora aumentava, ora baixava o tom da voz, de acordo com a ira do eu lírico que ali eu representava.

Agora ele me olhava com um olhar mais piedoso. Abaixava a cabeça entre as patas, olhava o chão, depois voltava a me olhar compadecido de meus atos. Não arredava pé do local, mas demonstrava já alguma impaciência com a situação. Creio que, se pensasse aquele bicho, estava pensando em me internar. Ou talvez da falta que eu faria uma vez que estivesse trancafiado num sanatório. Talvez o olhar de piedade nem fosse em virtude de minha pseudo loucura, mas de sua própria desventura, caso alguém me internasse. Seu dó seria de sua própria desventura. Eu continuava a recitar o poema. Por vezes ele olhava para fora do ambiente, como quem procura um abrigo ou uma saída. E eu seguia com o poema:

Que seja isso a nossa despedida - Ergo-me e grito - alma incendida
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais.
Que nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste.
Deixa-me só neste ermo agreste, alça teu vôo dessa porta.
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta.


Aproveitando a deixa, ele se levantou e rapidamente foi-se. Eu lá fiquei hirto e sombrio.


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20:06

Com a palavra


Só, como um barquinho que navega na imaginação inocente de uma criança, aperto compulsivamente as teclas numeradas do controle remoto e tenho a sensação invertida de controlar a TV.

Só, como um jovem silencioso que confraterniza com amigos mil em algazarra, percebo o quanto sou diferente dos meus semelhantes e compreendo que sou uno, indivisível e tenho a sensação invertida de nunca estar só.

Só, como um Deus que tudo sabe e tudo vê, uno e impotente, sem ter com quem dividir suas dúvidas e suas certezas, sinto a dor celestial de pensar em tudo, fazer tudo, ordenar tudo e tenho a sensação invertida de tudo poder.

Só, como a insistente estrela da manhã que espera, em vão, a companhia do sol para a seu lado reinar e se vai tão logo Apolo surge no oriente, percebo que algumas pessoas me apagam e tenho a sensação invertida de ser estrela.

Só, como o homem só que escreve à noite, releio o texto buscando nas palavras algum alento que preencha a noite - vida escura e só - e percebo nelas vidas diversas, diversos sentidos e paro com a sensação invertida de estar só.


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16:49

Um detalhe a Zero

Claudio Justo

O que esperar de um time, cujo treinador pensa que o gol é um detalhe?
O que esperar de um time, que tem um treinador que acredita que ganhar jogando mal é um espetáculo?
O que esperar de um time que possui um treinador que acha que a história não registra os times que jogam bem, mas apenas o campeões?

Quando tinha treze ou quatorze anos, eu era zagueiro do Pompéia Futebol Clube, time amador de Belo Horizonte. Meu treinador era um jovem chamado Ricardo Ruella, que vivia envolvido com o esporte. Foi ele quem me ensinou tudo que sei sobre o ofício de ser zagueiro. Os treinos aconteciam aos sábados e, quando tinha, os jogos eram aos domingos. Certa vez, não me lebro o que ocasionou o comentário, ele nos disse: "time que tem medo de perder, não merece ganhar". E aquele foi um dos maiores ensinamentos que tive na vida.

A nossa história no futebol é marcada pelo talento ofensivo. Vejam só nossos destaques nessa copa: o miolo de zagua e nosso goleiro. Nossa maior esperança, eleito duas vezes o melhor jogador do mundo, era obrigado a marca no meio do campo. Parreira conseguiu realizar o sonho dos maiores treinadores do futebol mundial: parar o Ronaldinho Gaúcho.

Não Parreira, o gol não é só um detalhe. Ele é simplesmente o objetivo do jogo. A razão de ser do esporte mais visto no planeta. E nós, todos os brasileiros sabemos disso. Por isso pedíamos um time que atacasse. Por isso pedíamos um time que desse espetáculo. Ainda que esse time se abrisse na defesa e corresse o risco de tomar um gol. O risco faz parte do jogo e o objetivo é fazer mais gols que o adversário.

Ao contrário do que você pensa, a história não é injusta e premia, SIM SENHOR, os times que encantam as platéias. Aliás, nunca se falou tanto do Carrossel Holandês, como nesta copa. A todo instante alguém tocava no baile que o time de Cruyff deu em nossa seleção, em 1974, mostrando que a história não é tão ingrata. Será que o senhor nunca ouviu falar da Hungria, de Puskas? Se não, te conto que, em 1954, nos enfiou quatro, fora o chocolate. A Seleção Brasileira de 1982 dispensa comentários né. Não chegou nem à final, mas é apontada por muitos como a mais genial de todos os tempos. Há também a Dinamáquina, que assombrou na primeira fase da copa de 90. Não passou disso, mas está gravada na história. Como podemos ver, a história reconhece o empenho dos grandes jogadores, como também reconhece o fracasso dos mais medíocres. E não tenha dúvidas, Parreira, o senhor estará na galeria do futebol, manchando nossa história de toques geniais.

Jogar bonito é importante também, senhor destreinador. E é possível ganhar dando espetáculo. Os Bleus que nos digam, certo? Como faz bem ver o futebol organizado, buscando o gol. Foi doloroso, está dolorido, mas quer saber: Zizou, Henry e os azuis nos devolveram o orgulho de ver o futebol arte vencer. Nos devolveu o direito de bater no peito e dizer que somos uma pátria de chuteiras, e não 180 milhões de ignorantes.

Agora nos faça um favor: saia à francesa!


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20:37

Chato


Dentre todas as espécies que existem sobre a face da terra, a que mais me intriga é a espécie dos chatos. Sua vida se resume em dividir a chatice dele com todos que estão ao seu alcance. É uma parasita ao contrário, que não se satisfaz em ter chatice suficiente para ele e sua família, então busca um meio de propagar sua chatice. Geralmente os meios mais chatos.

Estamos em época de Copa do Mundo, a festa do futebol mundial, evento de maior visibilidade no planta, que celebra o esporte mais popular do mundo. Período propício para nos livrarmos de nossa sisudez necessária do dia-a-dia e tirarmos férias daqueles notíciários deprimentes.
Toda a programação da mídia está voltada para a disputa do futebol. Até aqueles jornalecos populares, que trazem diariamente uma desgraça na capa, está dando total cobertura à Copa. Aliás, até folheto de igreja fala por linhas tortas sobre o esporte bretão - dizem que um padre, lá pelas bandas de Roma, pediu para o papa abençoar a Azzurra.

Então é isso, estou de férias das colunas de política, de polícia e de economia. Ninguém aguenta tanta merda, tantos dias no ano. A não ser o chato.

É assim: O Brasil jogou mal contra a Croácia. O Ronaldo, isolado lá na frente, sem conseguir correr atrás da bola, batia papo com o goleiro. Ninguém acreditava mais em vitória e os menos chegados no esporte já cochilavam entre cornetas mudas. Até que o Kaká num chute mágico, acertou a bola no gol. Dizem os especialistas que, assim como homem gosta de cerveja e mulher gosta de dinheiro, bola gosta é de gol. Então, para se ver livre desses pernas-de-pau, a bola foi aninhar-se nas redes. Por essas mágicas do futebol, o Brasil ganhou o jogo. O pessimista se embebedou reclamando que o time é ruim. O otimista foi festejar, afinal, o importante é ganhar. O chato olhou os dois e saiu gritando que é um absurdo o país parar para ver o jogo, com tantas injustiças sociais acontecendo por aí.

O Brasil jogou de novo. E novamente mal. Mas por capricho dos Deuses do Futebol, ganhou novamente. O pessimista se embebedou, desta vez certo que o time é péssimo. De tão bêbado cogita até torcer para a Argentina. O otimista caiu na farra tão bêbado quanto o pessimista, prevendo o hexacampeonato. O chato, sentou no sofá, ligou indignado a tv, viu que só se falava em copa do mundo, desligou a tv, foi à igreja, viu o sacerdote pedir uma oração para que o Ronaldo volte à sua forma física, voltou para casa e decidiu escrever uma carta a um jornal.

E o chato do editor publicou. Advinha quem comprou o jornal?



Rabiscado por Claudio

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18:21

Mulher Descalça




Logo à frente estão as pedras em forma de pirâmide, amontoadas por algum rio que passou por ali. À sua frente, as admira uma roseira que traz consigo seu belo troféu escarlate e um riacho que talvez seja filho daquele que juntou as pedras de forma tão minuciosa.

No bos que que as abriga, passeia a frágil mulher descalça, que ao vento demonstra total falta de pressa. De olhos fechados relembra os momentos da infância, quando, também descalça, ali brincava com a idosa senhora que a acompanhava. Ali corria, se molhava no riacho, voltava para a velha e se sentava sobre a grama que cobre o chão, para um descanso e um rápido lanche. Depois do lanche voltava à correria assustando borboletas coloridas que fugiam como flores aladas. Ela se divertia.

Seguiam por todo o bosque assim. Paravam, descansavam, e voltavam ao caminho. A menina que agora caminha descalça, corria; a senhora que a acompanhava, seguia a passos breves que a outra agora imita.

O caminho era anunciado pelo leito do riacho e, chegada a metade da tarde, antes de se porem no caminho de volta, sentavam-se ao pé do pequeno monte de pedras, nas rochas mais baixas. Ali sentiam o vento nas faces, viam o colorido das borboletas e ouviam a o sussuro do riacho e o canto dos pássaros em algazarra. Permaneciam assim até a hora da volta.

Agora a mulher repete o gesto, descalça e a pequenos passos. À frente estão as pedras em forma de pirâmide, amontoadas por algum rio que passou por ali e a roseira que traz consigo o belo róseo troféu.

Ela se senta ao pé da pirâmide, levanta suavemente a barra do discreto vestido azul, e ali sente na face a pouca brisa que resta na cidade que rodeia o antigo bosque. Tenta ouvir, entre buzinas e motores, o sussuro do rio e o alarido dos pássaros. Borboletas já não há.

A mulher, então, abaixa a cabeça num gesto suave e estende a mão à roseira como se fossem irmãs. Por cima dos olhos dá uma olhada naquela singela presença entre pedras, fecha os olhos por um instante e, quase imperceptívelmente dá um sorriso confessando à planta que também trás na lembraça um trófeu escarlate.


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14:54

Passaram-se outros dias


Decidi que quero falar de sexo. Não meramente de sexo como muitos fazem por aí atrás de votos populares. Muito menos quebrar tabus ou escrever romances. Quero falar de forma menos pretenciosa, sem muito objetivo. Falar por falar...
Começar um assunto desses é tão complicado quanto começar o ato sexual. É uma coisa meios instintiva, meio sem rumo. A preliminar do texto precisa ser tão boa quanto a preliminar do ato, que, em si, é parte do ato como um todo. Sempre que penso em escrever uma autobiografia, me pego pensando quando começa a minha história. Talvez no dia em que nasci, talvez no dia em que fui concebido, talvez, muito antes disso, quando começam as histórias de meus pais. Estas talvez comecem na história de meus avós e continuará assim até chegarmos no enigma da criação da vida. Assim também é uma noite de sexo. Noite, tarde, manhã ou até naquele intervalo entre a manhã e a tarde, hora de almoço, quando alguém está comendo... alguém!

O sexo começa um pouco antes de si mesmo. Começa no convite para sair e ir em algum lugar. Há já a intenção de dar e comer. Sejamos francos: ainda que a oportunidade aconteça de forma inesperada, já saimos de casa preparados para a possibilidade do inesperado acontecer. Ou seja, o inesperado nem é tão inesperado assim. Talvez sejamos seres sexuais, principalmente na sociedade moderna, cada vez mais erotizada, com corpos à mostra e ferormônios (melhor seriam ferozmônios) à venda.
O ato termina no gozo ou além dele. No carinho nos braços dos amantes, antes do inevitável sono. Na correria para a volta para casa, para encontrar o parceiro oficial. Na ligação do dia seguinte, para os mais românticos. Ou, em casos mais capitalistas, na contagem das notas que bancam o sexo pago. O certo é que a noite de sexo termina...
O durante é que é o caso mais sério. Como, enfim, é fazer sexo? Um ato animal, sem muitos segredos, do qual só se deve deixar o corpo agir de forma instintiva? Ou um trabalho planejado, visando o gozo eterno, o orgasmo inalcançável que nos prometem os produtos eróticos mais modernos? Fazer sexo está virando uma coisa cada dia mais complicada.

Quando era mais novo, acho que já contei aqui, sonhava em ser padre. Não daria certo, pois meu gosto pelas mulheres é, antes de uma afirmação de minha masculinidade ou opção sexual, uma herança genética dada pelo meu pai, que era um apreciador. Também não sabia o que era celibato ou volto de castidade. Sequer sabia o que era voto (e ainda tenho dúvidas se realmente sei o que é esse termo vago). Bem, o sonho, como tantos outros, caiu por terra e virei o que virei.

Voltando a sexo, depois da revolução feminista, fazer sexo ficou uma coisa mais complicada. É necessário concentração, preparo espiritual, mentalização positiva e tesão, muito tesão. Hoje em dia não basta comer, tem que comer e convencer. Comer bem comido, literalmente lambendo os beiços. Acompanhe: nas preliminares é necessário uma sensibilidade de um cego, principalmente quando estamos trabalhando com as mãos. Você está deitado com sua parceira e naquele momento estão trocando carícias íntimas, metendo a mão onde é chamado. Nesse momento é necessário sentir a textura da pele, para saber onde apalpar melhor, onde poderá dar mais prazer. É necessário escutar as pistas que sua parceira vai dar, nos seus toques. Um gemido mais alto pode significar que é ali que ela quer. Ou simplesmente pode querer dizer um "tira a mão daí". Não importa! O que vale é saber que aquele lugar é diferente dos demais e com o tempo você descobrirá porque. Você passa um dedo sobre a entrada da cavidade vaginal e sua parceira dá um leve sussurro, sobe para a parte dos lábios e o sussuro aumenta e, ao chegar no clitóris, ela geme... É preciso perceber essas coisas acontecendo. Vá lá, ainda temos alguma percepção com os dedos. É um de nossos cinco sentidos. Mas quando estamos no ato sexual propriamente dito... Temos que sentir as mesmas coisas, mas com um dedo menos experiente. Os sons, os jeito de mexer, a virada dos olhos, o movimentos dos lábios que ora sem mordem, ora se abrem ou então se fecham. Tudo são pistas de como proceder na cama. Segurar seu orgasmo pode te transformar em Don Juan ou num simples tarado. O tempo que dura uma relação pode ser sinal de virilidade ou anormalidade... conviva com isso, amigo. Trepar é um ato científico...


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18:03

Depois de uns dias




Esta semana marco minha viagem definitivamente. De posse dos documentos, me faltavam algumas definições que alcancei hoje. Para onde ir, onde ficar e o que fazer lá é coisa já bastante adiantada. Fora essa, a novidade que alguns talvez não estejam atualizados é sobre meu novo estado civil. Solteiro novamente. Dói um bocado no começo, mas dado a minha saída do país, acaba resolvendo alguma coisa. "Até o amor nos esgana essa canção/ que nosso peito ri à gargalhada./Flor, que nascida, é logo desfolhada./Pétalas que se pisam pelo chão".
Minha nova realidade requer atitudes bastante seguras, mesmo que não haja qualquer segurança. Somo fruto de nossas atitudes e o que define nosso carater é a forma como encaramos as dificuldades da vida. E hoje encaro com relativa serenidade, com total consciência e com toda força do mundo.
Volto logo com mais novidades e mudanças totais nesse blog, que vai ser meu elo de contato com as pessoas à minha volta.
Abraços!


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18:33

Buenas Noches!




Daqui a um tempo será assim que saudarei meus amigos, saudar não, saludarlos. Não é segredo, mas estou indo atrás de um destino engraçado: voltar para o Velho Continente, lugar onde nunca estive. Parece estranho, mas é verdade. Estou indo na condição de espanhol retornado.
Na família é um vai-e-vem sem fim: meu bisavô nasceu lá e veio para cá. Meu avô nasceu aqui no Brasil, mas foi para a Espanha. Meu pai nasceu lá e, junto com a família, veio para o Brasil. Agora me resta continuar essa estranha tradição.
Sempre fez parte de meus objetivos. Dizia, quando me perguntavam se tinha interesse em viajar para a Espanha algum dia, que não tinha interesse, tinha obrigação. É como um muçulmano ir à Meca.
Terei dificuldades. O sonho do El Dorado já não existe e, em parte alguma do globo, existem molezas. Vô tê qui ralá mermo! Existe o problema do idioma, que domino em parte, mas não se compara com o conhecimento que tem aqueles que falam a língua diariamente. Um problema até fácil de resolver, diria. A questão do clima me preocupa bastante. Para se ter idéia, a previsão do tempo para hoje é de temperatura mínima de 1 grau e máxima de oito. Já no verão, que começa em junho, a temperatura pode chegar a meros 50 graus. Estações bem definidas. Fora isso tem o ETA, que vive explodindo alguma coisa e, agora, os árabes que foram ofendidos e que, lamentavelmente, elegeram a Europa como inímigo do Islã. É o terror!
A favor tem o fato de que estarei deitado no berço da cultura ocidental. O fato de ter direito a algumas ajudas públicas para acesso a melhores condições de trabalho e acesso à universidade. Descobri no site do Ministério de Educação de lá, que os reitores da universidade podem autorizar (ou não) a conclusão de cursos iniciados em outros países. Não creio que será meu caso, já que se trata de um curso muito direcionado para o Brasil. Mas não tem problema. Começar de novo é sempre bom! Pesa a meu favor também o fato de chegar totalmente legal por lá.
Bem, vou ficando por aqui. Depois conto como toda essa história começou até chegar nesse ponto.

"Pero no cambia mi amor, por mas lejo que me encuentre. Ni el recuerdo, ni el dolor de mi pueblo, de mi gente..."


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13:01

Lembranças




A antena de TV de minha casa é externa. A antena ou o que sobrou dela nesses longos anos, exposta a sol, chuva e vento. Das astes sobraram apenas lembrança. Ganhei uma nova antena, numa carona que peguei na antena de meu irmão. Aquela, antiga que insistia em permanecer ali, foi retirada e seus restos transformados em brinquedo pelo meu sobrinho. Nada se perde, nada se cria. Tudo se transforma.
Matheus, esse é seu nome, transformou dois inocentes canos de alumíno em duas divertidas espadas mosqueteiras. A bainha de madeira protege as mãos, o material metálico dá ao instrumento uma certa leveza que prometem movimentos suaves, porém definitivos. E em mim, tem o incrível poder de transportar-me ao passado.

Certo tempo de minha vida, fazia espadas touché para brincar com dois amigos. Éramos os três mosqueteiros, e cada qual brigava com toda habilidade para ser D´Artagnan. Rominho levava certa vantagem: brincávamos em sua casa, onde, ao fundo, funcionava uma serralheria de um tio seu que lhe fazia espadas garbosas e firmes. Eu e Rodrigo esgrimávamos com espadas mais modestas.
Houve uma época que todos tínhamos espadas como a de Rominho, de ferro rígido, movimentos insinuantes e golpes dolorosos. Ainda não tínhamos habilidade para o manejo de uma espada. Às seis horas parávamos, corríamos para a sala, onde D. Geralda nos esperava com um suco e biscoitos, e assistíamos a um desenho que contava a história de Atos, Portos, Aramis e D´Artagnan. Todos representados por pequenos cães.´
Após o desenho, revigorados pelas aventuras da TV, voltávamos aos nossos duelos. Depois do cair da noite, cada qual ia para sua casa e dormia feliz.

Matheus deu-me uma espada. Mostrei-lhe o posicionamento e duelamos. Eu, em 1985; ele, em 2005. Mais velho que eu.


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13:19

Dimenor




A criança acorda rota,
Suja e tensa. Trabalha
Na noite escura, fria e morta.
Somente na madrugada da batalha,
Repousa sobre jornais em qualquer porta.

A criança acorda alegre em correria.
Festeja, entre crianças, a claridade
Daquela manhã de folga. Com euforia,
Alimenta o fraco corpo com caridade,
E alimenta a jovem alma com alegria.

A criança diverte a tarde com a artimanha
Que aprende nas noites longas de sua labuta.
E no bate-rebate da vida, esse perde e ganha,
Mostra a habilidade de sua luta,
E dribla a dificuldade com incrível manha.


Claudio Justo


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20:57

Essa vai em homenagem à situação atual do Brasil.

Homenagem ao malandro




Eu fui fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais

Eu fui à Lapa e perdi a viagem
Que aquela tal malandragem
Não existe mais


Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal


Mas o malandro pra valer
- não espalha
Aposentou a navalha
Tem mulher e filho e tralha e tal


Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central


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12:06

Imagens




Tem certas imagens que não saem da minha memória e a que vou contar aconteceu bem ali, em algum lugar entre a verdade e a imaginação.

Em Belo Horizonte, a nova moda da empresas de transporte humano, para tucanizar o discurso, ou seja as empresas de onibus, é a instação de painéis digitais na frente dos veículos. Não sei bem se a finalidade é comercial ou meramente técnica, já vi de tudo nesses balaios. Outro dia passou por mim um ônibus anunciando um show que haveria na cidade. Ele veio, passou, deu seu recado e foi embora sem que eu soubesse para onde ele ia. Talvez fosse o que eu esperava, mas eu nunca soube. Outra vez passou por mim um outro, divulgando intermitentemente os nomes do bairro de origem e do bairro de destino. Aliás, isso foi o que eu presumi, pois não havia qualquer indicação de qual era qual. Não deu para saber se ele estava indo ou voltando. Os mais sensatos, têm colocado apenas uma saudação apropriada para o horário e o nome do bairro de origem, o que me parece ser o mais produtivo. E foi um desses que me chamou a atenção.

Perto de onde moro há um bairro cujo nome não alcanço a razão de ser. Imagino que se deva ao cemitério que lá existe. Creio que antes nada lá havia, então a prefeitura, graças ao espaço disponível, resolveu fazer ali um cemitério municipal. Os vivos, para não se afastarem de seus mortos, resolveram construir casas nas proximidades e logo aquilo se transformou num vilarejo, posteriormente elevado a bairro. Deram-lhe, então, o nome de Bairro Saudade. Claro que isso é apenas uma suposição. Mas que me parece bem lógica, digo.

Esperava o ônibus que demorava bastante. Ao meu lado, um senhor já bastante impaciente, reclamava que seu ônibus demorava já 50 minutos. Era início de uma tarde/noite chuvosa e certamente isso influenciou negativamente o trânsito. Depois de mais um quarto de hora, o senhor deu um largo suspiro e murmurou um "Graças a Deus!". Olhei em direção ao ônibus e vi uma das imagens mais ternas que pude presenciar em minha parca existência: O veículo vinha dizendo: "Boa Noite, Saudade!"

Aquilo foi comovente e senti como se o ônibus quisesse, de fato, apanhar o passageiro. O homem entrou no carro e em sua cabeça imagino que pensou: "Também senti a sua falta!"


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12:09

GUAM




Como é de conhecimento de todos aqueles que me conhecem, um de meus objetivos de vida é me mandar desse país de malas. Dizem que no futebol existem a mala-preta. O Marcos Valério, que é um mala, distribui malas cheias de grana por aí, enquanto me corroo de ciúmes: o cara é meu conterrâneo e não é meu amigo. Também eu, claro, pretendo fazer minhas malas e me mandar antes que me roubem o chão que piso.

Passei, então, a procurar locais interessantes para eu fazer pouso, constituir família e encaminhar minha vidinha pacata e tranquila. Comecei, lógico, pela Espanha, numa tentativa de fazer, em sentido inverso, o caminho percorrido pelo meu pai. De maneira geral as coias estão boas praquelas bandas européias, para quem pretende trabalhar. Devido a uma série de fatores, as famílias não fazem muitos filhos, o que envelhece a população e arrasa com a mão de obra.

Tem sido comum encontrar anúncios nos jornais, oferecendo trabalhos em países europeus. Reza a lenda que a surpresa reservada, quando se chega lá, é que o trabalho é prostituição, que seu passaporte é confiscado pelos cafetões e que você ficará preso até que eles se cansem dos seus serviços. Em síntese, malas!

Com esses riscos todos, embora ache mais interessante ser personal fucker na europa, que ser garoto de programa no Brasil, resolvi procurar outros lugares para onde pudesse mandar minhas malas.

Eis então que me chega um e-mail, falando de várias coisas, entre elas de um lugar chamado Guam. Falava de uma possibilidade profissional bastante interessante, prazerosa e de retorno garantido.

Segundo as leis de Guam, uma mulher não pode se casar virgem. Para facilitar o trabalho da população, o governo designa um oficial que tem a grata missão de deflorar as virgens. E ainda tem gente que acha que não se deve misturar prazer e negócios...
Não sei ao certo como funciona. Provavelmente os cartórios enviam para o orgão (o do governo, não o do oficial) responsável uma relação das pessoas que estão se casando. O orgão (do governo) emite um despacho administrativo para o oficial que coloca, então, seu orgão para funcionar. Talvez também seja uma coisa mais tranquila. Depois que a menina atravessar a rua sozinha, falar papai e mamãe, pular na água e fizer tchbum, o oficial, embuido dos poderes a ele cedido pelo Estado, a rapta, cumpre com a sua obrigação e vai para casa, para os braços de sua família.

De fato, não importa muito essa parte burocrática. Profissional que sou, o que me interessa é cumprir bem meu dever e honrar o pagamento que me é dado no final do mês, da quinzena ou da semana, de acordo com a legislação de Guam.

Então, caros colegas, peço a todos, encarecidamente, que se souberem alguma coisa sobre Guam, como sua localização, meios de acesso, se para tal cargo é necessário fazer concurso público ou quaisquer outras informações relevantes; que me digam, pois estou seriamente interessando em ingressar numa vida fora de meu país. E talvez seja uma boa alocar minha mala em Guam.


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13:40

Surpresa para a medicina



DEU NO FANTÁSTICO:


Pesquisa revela que logo após o orgasmo, as mulheres passam por um processo de desligamento do cérebro. Elas simplesmente saem de si.

Hahahahaha...

Ao contrário do comum, elas sofrem de morte cerebral depois de fazer a doação do orgão.


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13:56

Minha Infância - Primeiros Passos



Via o Roberto Jefferson disparar sua metralhadora verborrágica contra todos os políticos. Em que pese a falta de provas nas acusações do deputado, acredito no que ele dizia. É uma bandalheira.

Isso me fez lembrar de meu pai e pensava que, para quem teve um homem de caráter como pai, uma vergonha dessas toma proporções gigantes. Foi daí que surgiu a idéia de escreve este texto.

A imagens da minha infância surgem na minha mente como rápidos e inesperados flashbacks. Já se foram tantos anos e eram tantas coisas ao mesmo tempo, que - imagino - não dá para guardar tudo.

Nasci numa família decididamente pobre e as coisas não mudaram muito. No entanto fomos criados numa proposta de rigidez de caráter impressionante. Meu pai era uma pessoa quieta, não gostava muito de agitações. Não ia muito na casa dos outros e dizia que isso era porque não gostava que fossem incomodá-lo na casa dele. Tinha um temperamento muito forte e marcante e, como se isolava um pouco, tinha uma impressionante habilidade para fazer o que quisesse. Tinha pouca instrução, cursou apenas o primário, mas, ainda assim, o pouco tempo em que estudou foi o bastante para que se destacasse. O único objeto de recordação que tenho dessa época é um diploma de aprovação com distinção. Ele fazia todo tipo de objetos. Se quisesse algo de madeira, pegava um tronco e fazia. Se fosse de pedra, construía. Consertava carros, enfim, fazia o que desejasse fazer. Nos criou numa política de liberdade vigiada. Soltava. Se aprontássemos, puxava às rédeas e ficava firme. Todo erro foi castigado.

Eu, no meio disso, não compreendia muito bem, mas sabia o que não deveria ser feito. Não gostava de apanhar e acho que ninguém gosta. Não tenho qualquer recordação de minha mãe, senão de minha madrinha escolhida por ela. Cileida ou Sileida, não sei como se escreve. Nunca mais a vi.

Como meu pai saía para o trabalho que sustentava a casa e os três filhos que criou corajosamente sozinho, cabia à Sileida cuidar de mim e meus irmãos. Ela ou alguma empregada que estivesse trabalhando em casa. Eu, como afilhado e mais novo, tinha sobre mim uma vigilância mais efetiva. Com isso, não me era permitido fazer as mesmas coisas que meus irmãos, o que me deixava enfurecido. Certa vez, numa distração da responsável, fugi e saí para a rua atrás de meus irmãos. Não alcanço qual seria a minha idade na época, mas era um toco de gente e pelo alvoroço dos adultos devia ser pouca idade. Lembro-me que apanhei da minha madrinha naquela tarde e depois de meu pai. Com isso passei a detestá-la. Certa vez, não sei quanto tempo depois, meu pai me levou para tomar uma vacina no Hospital da Cruz Vermelha, pois ela trabalhava lá e tinha se disponibilizado a dar a vacina de graça. Lembro apenas da multidão na porta do hospital e que soltei da mão do meu pai. Ele só deu por minha falta - tinha o habito de acompanhar meu pai sem estar de mão dada - quando chegou até Sileida. Ele ficou desesperado e me encontrou sentado, quietinho, na escadaria do hospital. Foi quando falei que não queria tomar a vacina com ela. Acabou que tomei no posto de saúde do bairro mesmo. Deve ter sido por isso que ela sumiu. Não faço idéia de onde a encontrar. Devo-lhe desculpas.

Mas eu gostava de andar na rua, descalço de preferência. No final dela, onde hoje existe uma avenida, corria um pequeno córrego que tinha uma pequena ponte. Uma pinguela, como dizia meu pai. Eu passava por lá todos os dias para ir à casa de uma menina, amiga de minha irmã, chamada Emiliana. Eventualmente eu me distraía na pinguela e caía no rio. Não me lembro o que acontecia depois, mas creio que não era nada agradável. Emiliana, anos depois, passou a ser chamada de Miriana e virou puta. Eu nunca mais caí no rio.

Na rua, assim como eu e minha irmã, Mary, tinham mais duas famílias com casais de irmãos: Irío e Iara e Rômulo e a irmã dele que não me lembro o nome agora. Então juntávamos todos e ficávamos brincando de rouba-bandeira na rua, isso, claro, depois que ela foi pavimentada.

Eu era um menino particularmente bom. Bom não, bobo. Faziam o que quisessem e por isso meu pai era bastante vigilante. Uma vez o Irio e a Iara passaram a mim e à minha irmã para trás. Tínhamos ganhado um dinheiro, algo como cinco reais hoje. Eles trocaram conosco por notas de brinquedo. Saímos todos contentes para gastar no bar do Beril que ficava na beirada do córrego, onde é a avenida Belém. Como ele era muito amigo de meu pai, Beril vendeu tudo que quisemos e depois entregou o dinheiro de brinquedo a meu pai. Quando contamos a ele o que aconteceu ele correu atrás do prejuízo e deu uma merda danada.

Acho que esses foram os primeiros passos de minha infância. Depois conto alguma coisa da segunda fase da minha vida, quando comecei a crescer e ficar mais solto ainda...



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14:52

Batalha Naval




Protegidos pela escuridão da noite, sentaram-se Adolfo, Benito e Napoleão, para elaborarem o ataque a esquadra inimiga que dominava os mares.
Adolfo propôs enviar dois cruzadores e cinco destróieres, para cercar os inimigos a leste. Benito ficou de mandar corvetas, fragatas e porta-aviões, para combater a noroeste. Napoleão decidiu, então, enviar outros cruzadores e alguns destróieres, para os cercar a oeste.
Planos feitos combinaram de iniciar os ataques, simultaneamente, ao raiar do dia, logo ao subir da maré, na agitação do final da ressaca.
Passaram a noite preparando suas esquadras. Ao amanhecer encheram a grande banheira, lançaram embarcações à água e, só então, notaram que não havia mais papel para a esquadra inimiga.



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14:23

Gases




A primeira pontada era apenas uma agulha. Uma cólica daquelas bem leves, que até nos dão prazer quando nos aliviamos. Fui ao banheiro, olhei bem se havia alguém nos boxes, para evitar qualquer constrangimento ou comentário mais maldoso e me esforcei. Para minha surpresa, aquele pum que se insinuava ruma à liberdade, não saiu. Voltei consternado para minha mesa, onde uma pilha de papéis me aguardava ansiosa.

Pouco tempo depois veio a segunda pontada. Dessa vez mais forte. Atravessava meu fígado e me fez dobrar de dor. Soltei um leve gemido e fiz uma dúzia e meia de caretas. A colega que estava ao meu lado, percebendo meu sofrimento, perguntou se estava tudo bem. Disse que não era nada, apenas gases e ela se tranqüilizou com um leve sorriso nos lábios.

Respirei fundo, me acalmei e a dor passou. Me levantei, tomei uma copo d´água, para me tranqüilizar e, voltando ao meu posto, veio a terceira pontada. Agora era um punhal que me rasgava o abdômen, perfurava minha barriga e fazia com que cada órgão meu se desviasse de sua lâmina afiada. Sentia as bolhas dos gases estourarem freneticamente, como um festival de fogos, ao som do Bonde do Tigrão e Mc Serginho. Levei a mão à barriga, me dobrei e, instintivamente, quase me agachei de tanta dor. Me sentei e fui acalmado, o que aliviou momentaneamente aquele martírio.

Não me restava outra coisa a fazer, senão ir à farmácia e dizer ao balconista, com a cara enfiada num saco de supermercado: "moço, não consigo peidar, me ajuda!" Previa a força que ele faria para segurar a gargalhada e talvez, nesse descontrole de riso, ele soltaria um sonoro pum, que me mataria de inveja. Fui lá, entrei sério, com uma mão no bolso e a outra pousada sobre a barriga, que por si só já denunciava meu mal. O homem me olhou e disse-lhe que estava precisando de um medicamento para cólicas intestinais. Ele me receitou um e sai contente e ansioso para tomar logo aquelas pílulas.

Diante de minha ansiedade, o remédio não fazia efeito, que para mim deveria ser instantâneo. Como já estava no final da tarde, decidi que talvez fosse uma boa idéia fazer uma caminhada até o centro da cidade para, ao ar livre, mesmo com algumas caretas, forçar um pouco a barra e liberar os prisioneiros. Assim o fiz.

Aquela boa idéia que me pareceu nos princípio, depois de um quarteirão se transformou em pesadelo. As contrações vinham fortes. Levava desesperado as mãos à barriga e tinha certeza plena que daria à luz um filho. Sofria como nunca, respirava fundo e continuava meu calvário particular até o centro da cidade, onde cheguei quase uma hora depois, para encontrar com minha amada namorada. Se já é uma temeridade soltar um inocente pum diante da namorada, imagine o risco que se corre, diante da possibilidade de soltar não um, mas vários gases venenosos, daqueles que acordam os mortos, tamanho a densidade do gás que não dissipa no ar e do estrondoso som, semelhante a uma nave espacial entrando na atmosfera terrestre... Estava tenso, decididamente vivia os meus piores momentos e somente uma tragédia poderia ser pior que aquilo: cagar!

Era uma sexta-feira e aquilo acabava com quaisquer pretensões do casal. Fui direto para casa, sob a escolta preocupada de minha amada, que ao meu lado, segurava a minha mão e me olhava com terna cumplicidade. Queria enfiar minha cabeça no tronco ou em qualquer lugar que não requeresse muito esforço, pois isso faria aumentar as contrações.

Em casa, ainda uma última vez, tentei forçar a barra no banheiro e, diante da negação daqueles gases revolucionários, desisti daquela missão. Deitei-me, enquanto minha doce namorada pegava informações com meu sogro, a fim de aliviar minha triste sina daquela noite. Depois de algumas conversas, meu sogro, experiente no assunto (não sei se por prática ou por observação), me recomendou uma receita infalível. Fê, minha amada, correu à farmácia e comprou o coquetel que tomei.

Instantes depois, me sentia bem. Das cólicas ficaram apenas uma dor na região abdominal, graças às contrações e à dilatação de todos os tubos digestivos. Melhor, quase todos! Meu sogro, que agora sabia de meu padecimento e poderia contar a seus netos, para me matar de vergonha, futuramente, a história do dia em que fui derrotado por um peido, havia me dado a receita salvadora que mantenho guardada sob forte esquema de segurança.

Horas depois, já dormindo, o primeiro medicamente, aquele comprado anteriormente e tomado às pressas, começou a fazer o efeito de liberar os gases. Soltava puns elásticos, sonoros e inodoros. Se houvesse como disciplinar o ânus, poderia, sem qualquer dificuldade, assobiar os três primeiros versos do hino nacional, metade de uma marchinha de carnaval ou o refrão do hino do Flamengo. Eram enormes e, se houvesse um campeonato, seria campeão mundial nas categorias: quantidade, tamanho e sonoridade. Perderia, inexplicavelmente, na categoria odor. Coisas do medicamento.

Meu amor, que dormia a meu lado, me olhava, sorria com o canto da boca, acariciava meus cabelos e, depois de um pequeno beijo, me perguntava se estava tudo bem comigo. Eu respondia afirmativamente com a cabeça e fechava os olhos pensando qual amor poderia ser mais verdadeiro que aquele.

Ps.: Depois desse dia não prendo peido nenhum. Nem em ônibus e nem elevador. Me desculpem os presentes nestes momentos. Compreendam a minha dor! (cachorro mordido de cobra tem medo até de barbante!)




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09:30

Prêmio de Loteria




O berço nunca fora de ouro, mas a família era grande e na comunidade todos tinham muitos amigos. No entanto, depositava seus melhores sonhos em insistentes bilhetes de loteria e, a muito insistir, lhe veio o prêmio desejado.

Mudou-se de bairro, mudou-se de casa, mudou-se de hábitos, mudou-se de amigos. Vivia agora numa casa grande com muros altíssimos, protegido dos bandidos e dos socorros financeiros que lhe eram pedidos. Viviam ali ele e empregados.

Morreu, anos depois, sozinho. Perdera na loteria o prêmio de ouro que ganhara no berço.


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10:48

Mini-Short




Não me lembro exatamente quantos anos eu tinha, mas me lembro muito bem do mini-short de Simone, quando ela me acenou e acabei batendo a bicicleta contra o táxi do pai do namorado de minha irmã. Aliás, não é exatamente do mini-short que me lembro bem, mas de seu conteúdo, o recheio.

Simone era o tipo de menina adorável: corpo bem distribuído, uma certa desinibição natural, um sorriso belo e uma fama que povoava a cabeça de todos os garotos da rua. Eu, por minha vez era o oposto. Sem muitos atrativos, desprovido das belezas mais simples, tímido e sem qualquer fama, nem boa, nem ruim. Saía à tarde, geralmente pelas três horas, e descia a ladeira em alta velocidade em minha bicicleta, para entrar perigosamente na avenida que passava ao pé do morro. Sabia dos riscos de topar com algum veículo na curva, mas confiava nos meus reflexos para tomar as duas atitudes básicas nessa situação: frear e desviar.

E por isso desci a rua daquela maneira aquela tarde. Ia tranqüilo, o vento forte soprava contra meu rosto, e tinha aquela deliciosa sensação de liberdade. Foi quando vi Simone subindo lentamente a rua, logo ali na esquina em que viraria. Meus olhos agiram instintivamente, acompanhando o movimento de seus quadris. Tinha total controle da situação. Sabia que voltaria ao normal e me concentraria na arriscada manobra que deveria fazer à frente, assim que passasse por ela e nem tentei impedir a minha leve virada de pescoço. Quando passei, para meu espanto e surpresa, ela me chamou pelo nome e enviou um beijinho de estalo. Se antes meus olhos tinham vontade própria, agora foram meus lábios que agiram sozinhos e abri um largo sorriso sem dono. Não voltei a cabeça e fiz a curva da esquina nessa posição sem jeito, indo para frente e olhando - melhor - admirando o que tinha atrás (de mim e dela). Só voltei à posição normal quando escutei a buzina do carro. Tentei desviar, frear, mas não teve jeito. Entrei com força em diagonal à frente do carro, voei por cima do veículo e aterrizei esfolado no asfalto do outro lado.

Demorei uns dois minutos para compreender a situação e me levantei ante os olhares pouco amistosos do motorista daquele táxi. Não tinha muito o que fazer, a não ser rezar e agradecer por não sido contra algum caminhão ou por não estar o moço pilotando em alta velocidade. Mantinha a cabeça baixa e ficava calado. Ele falava em chamar a polícia para fazer alguma ocorrência, o que considerava absurdo. Mas para aumentar o meu pânico, surgiram logo dois soldados que estavam de passagem por ali.

Prancheta preparada, BO em mãos e o dono do carro resolveu perguntar onde moro. Quando respondi e ele percebeu que era o mesmo endereço da namorada do seu filho, ficou desorientado. Provavelmente ficou com medo de prejudicar o namoro do filho, que eu sabia que terminaria ainda naquela semana, e decidiu dispensar os policiais. Fui dispensado também, depois de ouvir alguns ¿conselhos¿.

Peguei a bike nas costas, me pus a subir a rua, machucado, carregado, assustado e cansado. Mas tinha ainda uma motivação para subir: metros à minha frente ia Simone com seu mini-short, ainda ao alcance de minha visão.

E que visão!



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14:54

Amor de homem



A reunião no início do dia era prenúncio de dificuldades. Palpite certeiro: teve chamada a sua atenção pelo chefe, foi criticado, censurado, novos problemas chegaram antes dos antigos serem resolvidos, a secretária faltou, o almoço não veio e as horas passavam lentas. Mas passavam.

Ao chegar em casa, ao final do dia, esboçou um sorriso ante a porta que abriria e pisou alegre no lar.
Beijou a esposa e respondeu suave a pergunta da mulher:

- Nada demais! Foi um dia tranqüilo querida.



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10:21

Via Crussis



Suas mãos e pernas estavam amarradas àquela cadeira bem diante do palco da boate, em sua despedida de solteiro. Os amigos riam, enquanto uma dançarina nua serpenteava os quadris alí à sua frente. Ele, então, piscou lentamente, ergueu o olhar, e fitou a moça sussurrando para sí: "Por que me abandonaste?"

Dentre as risadas, um amigo, percebendo a aflição do outro, gritou: "Depeça-se dessa vida. És, agora, um condenado."

Ele olhou novamente o balançar da moça, deu um leve sorriso e pensou secretamente: "Eles não sabem o que dizem."

Ao pôr-do-sol da tarde seguinte se casava na Igreja do Cruzeiro, no alto da colina.


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13:55

Durex




É curioso como simples atividades do dia-a-dia podem, algumas vezes, significar mais que atividades do dia-a-dia. Não sei se já aconteceu com você, mas estou certo que, se fizer uma pequena pesquisa, descobrirá que já aconteceu e acontece com alguém bem próximo.

Algumas vezes, uma tarefa ou um gesto nos carrega sem nossa autorização para algum lugar do nosso passado real ou imaginado. Uma espécie de "dejavú" de verdade e pronto, nos vemos realizando algo parecido em nossa infância ou sonhos.

Aconteceu comigo esta tarde, quando, depois de rasgar - acidentalmente, juro - um documento importante, tentava remendar com uma fita transparente, meu erro. Do nada, diante dos meus olhos, minhas mãos encolheram-se e estava na minha infância, remendando uma nota de uim cruzeiro.

O entra-e-sai dos diversos bolsos e a passagem das cédulas de mão-em-mão danificavam mortalmente aquelas notas, e não restavam outros recursos, senão remendar a face da Princesa Isabel. Fiz diversas vezes. Mal a nota começara a se rasgar, lá ia eu, na minha inocência séria, restaurar meu dinheiro. Nunca gostei de dinheiro rasgado. Não sou doido.

Particularmente, esta minha volta ao passado depois me levou de volta a meu tempo real. E percebi que o dinheiro não se rasga mais. Pelo menos - e aqueles a quem perguntei - não tenho visto cédulas rasgadas ou remendadas. Creio cá, que esse fato se deva menos à diminuição de nossa doideira e muito mais à ausência do dinheiro em nosso dia-a-dia.

Que ele anda ausente não há dúvidas, mas não é disso que estou falando. O fato que me parece mais decisivo é que hoje levamos o dinheiro diretamente pro banco. Tiramos de lá e para lá levamos.

Veja bem: o salário hoje é depositado no banco "x", você o retira de lá, junta as contas que se avolumam em sua casa e leva tudo ao banco "y". Parte desse salário vai para padarias, açougues e suprermercados que, logo que põem a mão no seu suado dinheiro, o mandam de volta pro banco. Sem falar na internet que também nos alivia (?) de possuir nosso dinheiro. Aliás, a posse é simbólica.

O esmero e capricho que tinha com meu dinheiro não terei nem tenho mais. Dinheiro não há. O que resta a mim é rasgar - acidentalmente, repito - documentos importantes, para depois remendá-los.



Rabiscado por Claudio

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09:44

Não sou escravo
de
... ... ... Ninguém...

Sei o que tento
de-fender
o valor eu tenho e temo
agora se d e s f a z...

Meu Deus nunca me vi tão

Estes são dias deleais.

(mas)

Minha terra é a terra
que é minha e
SEMPRE SERÁ!

Minha terra tem a lua
Tem estrelas
SEMPRE TERÁ!


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11:28

Companheiro ou amigo ?




Há que saber diferenciar a presença de dois tipos de pessoas que surgem em nossas vidas, assim como do nada, mas que farão toda diferença: o companheiro e o amigo.

O companheiro surge num momento qualquer. Pode ser no trivial ou no inusitado. E alguém com quem nos relacionamos, de modo geral, nos momentos mais divertidos. Sua função é a de manter acessa a chama da vida moleque, pueril e, muitas vezes, inconseqüente.
Serão vários até o final da vida, pois basta ser uma pessoa divertida para eles se aproximarem. E sua grande vantagem é a presença constante nos bons momentos, que nos faz lembrar dele com ternura e carinho.
Faz parte de nossas boas lembranças.
Presença tão alegre faz-nos o confundir com nossos amigos, com os quais tentamos muitas vezes misturar. Erro de nossa parte, pois pertencem a grupos distintos e, tão opostos que são, não podem se misturar.

O amigo, ao contrário do companheiro, é aquele que eventualmente está presente em nossos bons momentos, mas que está presente em todos os momentos ruins de nossa vida, segurando nossa mão. Sua função é tornar nossa vida mais cinza, mesmo nos domingos de sol. Nos mostra que a vida séria e complicada, e que é preciso manter uma conduta.
Amigo, bem ao contrário do companheiro permissivista, diz "não".
O amigo pode ser divertido, mas é antes de qualquer coisa vigilante.
Amigo não liga para perguntar qual é a boa do final de semana, mas para saber se esta tudo bem conosco.
Amigo liga no meio de uma noite fria ou quente, tanto faz, porque teve um sonho ruim com a nossa participação e diz que se preocupou.
Amigo sai de casa durante a chuva para aparar nosso choro, ou para nos fazer chorar se for preciso. Não são presentes, pois vivem suas vidas e nos servem de exemplos com seus atos, mas um único telefonema de dez minutos é capaz de restaurar o que a distância tenta apagar.
Amigo não nos oferece prazer e diversão, isso se consegue com os companheiros. Amigos oferecem auxílio quando os companheiros se vão, pois esta é a sua natureza.
Amigo é uma entidade eterna, que mesmo à distância se sente próximo, porque juntos podemos ser tudo ou nada, mas tanto faz, pois o importante é saber que ele existe e que esta bem.
Amigo, como dizem os mineiros, são aqueles com quem comemos, no mínimo, um quilo de sal.


Rabiscado por Claudio

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