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Perfil Nome: Claudio Justo Idade: 32 Signo: Sagitário Cor: Amarelo queimado Coisas que adoro: Rock, dormir, sexo, amigos, tattoos, cinema, cerveja, música, livros, amigos, futebol, silêncio, namorar, escrever... é melhor falar das coisas que não gosto. Coisas que odeio: inveja, ciúme, falsidade, bacalhau, Faustão, mentira e incoerência.
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20:48 Nesta manhã me encantei por uma mulher feia. Sim, feia, de traços pouco simétricos. Sua boca, à primeira vista, parecisa ser mais larga que o maxilar e parecia fazer uma companhia íntima a seu queixo adunco. Os lábios, sem traços firmes que os emoldurassem, pareciam um inquieto mar vermelho e trazia junto consigo um nariz nem grande, nem pequeno. Talvez largo e afinado na ponta, projentando-se à frente de forma a acompanhar e surfar nos lábios logo abaixo. E aí parece que o rosto da mulher se dividiu em hemisférios distintos. Para se chegar a seus olhos, faz-se uma travessia por um espaço vazio que os separa um pouco da porção inferior da face. Os olhos eram comuns: nem amendoados, nem arregalados. Talvez pretos ou castanhos escuros e, também, um pouco afastados um do outro, formando um vazio no entre o nariz da moça e sua testa que ali se iniciava como pequena península, que culminaria num vasto oceano frontal. Os cabelos estavam presos e não se poderia dizer se eram lisos ou anelados. Os tempos modernos permitem variações tantas que qualquer tipo se torna suspeito. Mas, apesar de não muito longos, estavam presos. A pele era clara. Não de um branco de europeu, mas de um branco brasileiro, banhado pelo sol diário. O tipo físico era delgado, mas não como das grandes figuras da mídia. Algumas mulheres se martirizam por estar além do corpo das atrizes de TV. Esta mulher se martirizaria por estar aquém, se o fizesse. A estatura era mediana, mas o braços pareciam longos, assim como os dedos que pude ver claramente com as unhas pintadas de uma cor pastel. Trajava uma roupa comum, nem de festa, tampouco um traje doméstico. Cruzou por minha vista esta manhã, quando vinha para o trabalho de ônibus. Olhava para a paisagem que passava nervosa pela minha janela, quando percebi um movimento diferente do cobrador que, pelos gestos que emitia, havia cometido algum erro e se desculpava àquela senhorita. A moça sorriu timidamente um sorriso feminino, baixando os olhos e fazendo um pequeno movimento de negação enquanto colocava alguma coisa na pequena bolsa, como se, além de oferecer o perdão, oferece-se também para assumir a culpa, numa demonstração de solidariedade delicada. Com a mão direita que vi muito bem, apanhou seu troco com um gesto delicadamente feminino, o meteu também na bolsa e rodou a catraca com a suavidade de quem não força, apenas passa. Dirigiu-se a uma cadeira vaga, lentamente, sem movimentos quadriculares, como se deslizasse pelo corredor do veículo e se assentou numa poltrona vaga, ao lado de um senhor, como se pousasse. Ali ficou. Lembrei-me, naquele instante da flor de Drummond, em "A Flor e a Naúsea": "Uma flor nasceu na rua... façam completo silêncio, parelizem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe, suas pétalas não se abrem, seu nome não está nos livros. É feia. Mas é uma flor...". E depois, na minha auto-piedade, tive dó dos homens que têm a coragem de dizer que alguma mulher é feia. Tive dó de mim. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 17:15 Depois de entregar a maçã para Branca de Neve, ela se voltou para o espelho e insistiu: - Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais bela do que eu? O espelho então respondeu: - Não, não existe ninguém mais bela que você. Mas... Ela, assustada, perguntou com impaciência: - Mas??? Mas o que? - Bem, é que no Brasil existe um tal de Ivo Pitangui e você vai precisar de muita maçã envenenada. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 14:36 - Vamos lá, qual é sua queixa? - Perguntou o médico logo que começou a consulta. - Bem doutor, é um problema do caralho. - Ele respondeu rindo do trocadilho. - Tem sentido alguma coisa diferente nos seus genitais? - Voltou a perguntar o médico, depois de um sorriso sem graça. - Curisoso o senhor perguntar, doutor. Realmente tenho sentido sim. Uma das minhas bolas tem ficado dolorida nos últimos dias, logo que termino de trepar com minha esposa. - Só uma delas? - Sim, a da direita. Sabe doutor, a direita sempre foi um problema na minha vida desde o governo militar. Eu, que sou comunista, sempre fui perseguido pelos direitistas. Hoje não suporto ouvir falar de neoliberalismo. Arrepio só de pensar nesses entreguistas. - Certo! - Anotou o médico no prontuário do paciente, dispensando o discurso político. - A esquerda apresentou algum problema? - Não doutor. A esquerda é ótima. Nunca tive problemas com ela. É quase uma utopia. O problema mesmo é a direita, só a direita! Eu diria que a direita está fragilizada atualmente. Ou tentando passar por um momento de auto-afirmação, querendo se mostrar. Se tem alguma coisa na minha cueca que me aperte, é a direita que dá o grito. A esquerda fica quieta e nem me incomoda. - Eu entendo! - Como assim, o senhor entende? Já passou por isso alguma vez doutor? - Não, não! Só estou dizendo que entendo o que você quis me dizer. - Ah bom! - E o sêmen? Como ele está? - Hoje ele está meio opaco, sombrio, sem cor. Na verdade, nos dias atuais, quando o vejo o considero como a personificação da derrota. Aliás, posso dizer que nem fede, nem cheira. A propósito, não é sêmen, é Menen. Carlos Menen! Quebrou a Argentina, aquele neoliberal hijo de una puta! - Não, meu senhor. Estou falando do seu sêmen, do seu esperma. A porra, entende? - Ah sim! Tá a mesma coisa... - A mesma coisa de sempre? - Não! A mesma coisa do Menen. - Bem, eu preciso ver. - Ver o que? - O seu testículo. Deite-se naquela maca e baixe as calças até o joelho. - Hã? - Eu preciso verificar para saber o que está ocorrendo. O senhor pode estar com uma infecção da próstata e temos que descobrir isso. - Próstata? Não é aquele negócio da "dedada"? - Isso. Em alguns casos, para diagnosticar alguma enfermidade, temos que fazer o exame do toque retal. - Ah tá. Por curiosidade, em quem o senhor votou nas últimas eleições? - Hã? - É... Lula ou Alckmin? - Porque isso? - Curiosidade. É uma pergunta simples, vamos lá. - Eu votei no Alckmin. - Sabia... Direitista neoliberal filho de uma puta. Eu conheço esse seu papo. É sempre a mesma conversinha. Primeiro vem com essa história de puxar nosso saco, mas depois o que vocês querem mesmo é botar na nossa bunda. Adeus! Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 10:21 A menina abriu um sorriso ao me cumprimentar. Não era um sorriso de satisfação ao rever um amigo querido. Na verdade, tratava-se de um sorriso sem graça, frouxo e fugaz. Abriu-se e fechou enquanto ela balbuciava alguma coisa como "oi! Tudo Bem?", mas sem a esclamação e a interrogação. Aliás, um cumprimento sem som. Relembrando agora, não passava de uma sinal que denunciasse a mim que ela me reconhecera. De fato nos conhecíamos. Em nossas juventudes compartilhamos alguns dias, horas ou talvez apenas alguns minutos. Sei que nos encontrávamos, trocavamos algumas histórias e nada mais além disso. Mas desde sempre houve algum respeito um pelo outro. Ou, ao contrário, não tivemos tempo o suficiente para dar-nos motivos para não querermos mais nos ver. A olhei nos olhos e sem devolver o sorriso frouxo e amarelo, balancei a cabeça afirmativamente e balbuciei alguma coisa como "olá!", sem a exclamação. Talvez mexesse a boca, talvez arqueasse as sombrancelhas. Mas é um gesto tão instantâneo que sequer gravamos nossas atitudes. Meu intuito era retribuir o reconhecimento e dizer que também a reconheci. Amigos? Nunca! Conhecidos... Estranhos dos quais sabemos o nome. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 20:48 Ele era o rei o galinheiro. Altivo, peito estufado, a crista caída meio de lado, como se usasse um gel e um olhar inquisitor. Era um galo japonês, comprado por uma pequena fortuna. Quando da aquisição do animal, as referências eram as melhores possíveis. Ainda era um franguinho e aquilo parecia uma negócio de risco. Mas o bicho cresceu e passou a dominar o galinheiro. Tinha pelagem viva, em tons de vermelho sangue, mesclada com um negro de breu total. Se escrevessemos a marca da Petrobrás em seu peito, graças à coloração de suas penas, desbancaria o urubu como mascote do Flamengo. Tinha o pescoço e pernas compridas, o que lhe dava certa tranquilidade nas cópulas. Ao contrário do que dizem dos homens japoneses, esse galo trazia ainda esporas longas, grossas e pontiagudas. Era uma arma samurai em cada perna, que utilizava sempre que era necessário, para defender as damas do galinheiro. Pela manhã, quando jogávamos milho para os galináceos, ele se aquietava ao lado e esperava que cada uma das galinhas comessem o tanto que quisessem. Caso algum dos franguinhos que por lá existiam resolvesse comer antes das fêmeas, alvoroçava e partia para cima deles. Era um lord, apesar da origem oriental. Um verdadeiro gentleman! Acordava cedo e saudava o sol com seu canto grave. As galinhas suspiravam de admiração e logo abandonavam o poleiro. Algumas iam para os ninhos, onde colocavam seus ovos e saiam em irreverente cantoria sob o olhar curioso do japa. Era de fato um galo admirável e dava conta de suas obrigações no galinheiro. O dinheiro investido, aos poucos era reposto graças aos frangos que eram vendidos. Faziam encomendas de um franguinho daquele Hércules penoso. Foi assim durante um bom tempo. Ele lá, peito estufado, cabeça erguida, esporas armadas, plumagem que parecia penteada. Só faltava um boné da BadBoy, medalhão de Public Enemi sobre uma camiseta do Lakers e um tênis Nike, para ficar o perfeito gostosão da parada. Tinha galinha se fantasiando de arara, para chamar sua atenção. Certo dia apareceu por lá um galo intruso. Em sua crista faltavam alguns pedaços, bem como faltavam algumas penas em seu pescoço. O peito era pouco avantajado e as pernas compridas também sem a penagem de certa parte da coxa para baixo. Das duas esporas, restava apenas uma. Um galo feio, raquítico, de penas brancas meio amareladas. O detalhe curioso é que o galo era cego de um olho. Mais precisamente o olho do lado oposto da espora que lhe faltava. Imaginava a briga que haveria, quando este se deparasse com o galo ninja, com suas duas armas samurais. "Isso é um galo índio meu filho", ensinou meu pai. Eu entendia tanto de galo quanto de física termo-nuclear. Sabia que tínhamos um galo bom, de raça japonesa e que as galinhas viviam suspirando por ele. "E repare que é um galo de briga, vejo como está todo marcado". Continuava ensinando enquanto enxotava o intruso antes que o outro galo o fizesse. Adiantou por dois dias. Numa bela tarde, estava tranquilo quando ouvi o alvoraçar dos bichos. O índio tinha voltado e dessa vez não houve quem o detivesse: deu de cara com o japa. Cheguei a ameaçar separar os brigões, mas quando olhei mais de perto vi as três esporas, dois bicos e um sem fim de garras e achei melhor deixar que eles resolvessem a parada deles por lá. O nosso galo partia para cima do pobre diabo e como era muito maior que o outro, parecia se esquecer que era um alvo mais fácil de ser acertado. Suspeito também que ele achou que o intruso ficaria intimidado e peleou displicentemente. Ou era isso, eu creio que nosso galo japonês andou faltando às aulas de karatê, pois o galo índio, com toda a fúria de Tupã, lhe deu uma surra inesquecível, que me fez lembrar o depoimento do índio Tupi, em I-Juca Pirama: Meu canto de morte Guerreiros ouvi Nascido na selva Na selva cresci Guerreiros descendo Da tribo Tupi Sou bravo, sou forte Sou filho do norte Meu canto de morte Guerreiros ouvi. Tive, então, a brilhante idéia de jogar água nos bichos. A culpa recai sobre os gatos, mas bicho nenhum gosta de um balde d´água na cabeça. Não deu outra, o intruso fez uso das pernas, acalmou os ânimos e se mandou. O nosso galo, cabisbaixo, voltou para o galinheiro e se escondeu atrás de um caixote. Por lá ficou até o outro dia pela manhã. Não cantou anunciando o dia, não comeu, nada fez senão ficar encolhido, envergonhado de suas companheiras. Estas lhe olhavam desconfiadas, à distância. À tarde, novamente, o índio apareceu. Ainda com algumas marcas da batalha, mas nada que o fizesse se recolher. Era um galo atrevido e as galinhas começaram a enxergar isso nele. Tão logo chegou, algumas já se animaram tentando suprir com ele a carência provocada pela prostração do outro. Era cena da maior humilhação. Não havia mais o que fazer, senão sacrificar o samurai, antes que ele fizesse o auto-sacrifício. A galinhas sequer deram falta dele, estavam encantadas com o galo cego, meio pelado, esguio, cicatrizado, talvez até um pouco velho e calado, mas firme e atrevido. A que tentava ser arara, agora falava convencida que era mesmo uma ave nobre, porém com penas mais escuras graças a uma anomalia genética. Ele não dava muita bola. Se divertia com elas à tarde e depois se mandava sabia Deus para onde. Só retornava na tarde seguinte. Deconfiei dessa atitude do tal galo e um numa tarde resolvi segui-lo. Ele saia de nosso galinheiro, seguia até um muro baixo da casa vizinha, o pulava, atravessava a rua e entrava na casa em frente, que também tinha um galinheiro. Por lá dormia. De manhã cuidava das moçoilas de casa e à tarde dava conta das nossas. O cretino tinha outra família. Um pouco chateado com a atitude das galinhas, que não tiveram qualquer piedade do grande galo japonês, decidi por fim àquela orgia. Avisei à dona do galo índio o que estava acontecendo e solicitei-lhe que desse um jeito no bicho. Pronto! Elas que se virassem para conviver com a saudade do bicho. Ficamos sem galo por dois meses, quando um franguinho começou a por as mangas de fora. Sequer tinha esporas, mas tomava conta das fêmeas. Cresceu e se tornou tão grande e forte quanto o pai. Seus descendentes herdaram seus genes e também os do galo cego. Começava aí o reinado dos Galos Índio-Prata Japoneses. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 16:12 Existirá um significado misterioso para o fato de Deus ter feito a mulher após ao homem. Parece-me, de certo modo, um arrependimento, um ato de caridade divina Dele consigo mesmo, dando-se a oportunidade de tentar outra vez. Hoje, vendo os homens transitando sozinhos, levando sonhos e escritórios na cabeça, desconfio da simples intenção de dar uma companheira ao homem. Me é claro que Deus não ficara satisfeito com o resultado final de sua obra. Eu sua nova empreitada, arredondou as formas, acrescentou um pouco de barro aqui, tirou um pouco de lá, projetou minuciosamente os trejeitos, os gestos e os olhares. Pegou emprestado de algumas das flores, que criara para enfeitar o Éden, graça e formosura e empregou-lhes na sua nova criação. Tirou das estrelas um pouco de luz e lhe pôs à face e pintou em aquarela um sorriso mágico. O Criador se superou e fez, então, sua obra prima. Feita de belezas e poesia, logo que pisou no Paraíso foi reconhecendo a graça de tudo à sua volta, ao contrário de seu parceiro que buscava a caça. Ela não se aborreceu. De alguma forma, ao criar tais gestos e dar-lhe beleza e formosura, Deus acabou programando-a a burlar as certezas masculinas e, banhada em sutileza, o convencer a fazer aquilo que ela desejava. E é graças a esses dons divinos que, séculos depois da criação celestial, Marta sorri na cama ao lado de Francisco que lê irritadamente um relatório financeiro da empresa. - Amor, o que tem nesses papéis? - É o relatório financeiro da empresa, tenho que fechar isso até amanhã. - Respondeu Francisco irritado. - Mas amor, você já não ficou o dia todo trabalhando para resolver esses problemas. Agora é hora de outra coisa. Vem cá, vem? - Não posso Marta, já disse tenho que resolver esse problema. - Mais irritado ainda. - Ah, amor... - voz melosa. Isso não é hora de trabalhar, vem cá que vou fazer aquela massagem. - Não vai ter jeito, né? - Perguntou se virando a ela, com o papel já meio de lado e total impaciência na voz. - Claro que vai ter, amor. Vem cá que dou um jeito em você num instante. - Ai meu saco! - pondo a mão na testa, já prevendo uma briga que estaria por vir. - Está doendo também amor? Quer uma massagenzinha também. Eu cuido de você todo, coração. Ele respirou fundo, olhou para o céu como quem pede uma orientação ou paz e disse entre dentes: - Você não percebe que eu preciso terminar isso? Que não posso ficar de namorico? Ela então respondeu sorridente: - Eu percebo que tenho meu amor na minha cama, estou aqui toda para ele e querendo que ele mate as vontades dele. - Eu quero me enterrar - Disse ele, simulando um choro. - Então vem meu homem, se enterra. - Retrucou Marta com voz sedutora, fazendo movimentos para seu lado e enrroscando suas pernas nas dele. - Para de sacanagem, Marta! - Nós nem começamos, meu amor. Vem cá, vem... - Nem vamos começar. - Disse ele, levantando-se da cama e saindo do quarto com o tal relatório em direção à sala, onde passaria a noite a lê-lo. Ela ficou inerte vendo-o sair. Segundos depois, levantou-se, foi até a porta para se certificar que ele de fato fôra para o sofá e retornou ao quarto, apagando a luz e dizendo: - Vai pro inferno! Se vai passar a noite aqui, acordado, lendo essa merda de relatório, que pelo menos libere o melhor lado da cama. E, enfim, dormiu. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 20:09 O Russo me olhava. Primeiro com um olhar interessado, de quem é chamado às pressas por alguém de quem se gosta. Virava a cabeça para meu lado, como quem espera ansioso por uma resposta e aproximava a orelha. Eu, ali, de frente para ele, esbravejava em tom suave. Eu recitava O Corvo, de Edgar Alan Poe, para o cachorro. Não, não sou louco. Talvez até seja, mas não era um devaneio. Talvez até fosse. Mas o fato é que acordei num sábado desses disposto a decorar os 108 versos do poema. Já o havia lido uma infinidade de vezes e alguns versos já estavam mais que memorizados, precisava agora internalizar mais alguns e colocar em ordem. O fato é que foi até fácil. O processo é bem simples: repetição da primeira estrofe até provavel memorização. Depois recitá-la em voz alta, para que consiga ouvir as rimas (isso ajuda no processo de armazenamento do texto e, também, no processo de internação, caso a vizinhança resolva chamar uma ambulância). Em seguida, a próxima estrofe. Uma vez memorizada a segunda, repetia a primeira e a segunda. E assim foi se sucedendo até que tinha acabo as 18 estrofes, 108 versos e toda a minha paciência. Agora era treinar como recitar esse poema trava-língua. Minha história com esse poema é bem singular. Me apaixonei por ele logo na primeira vez o que o li. E olha que o fiz forçado, para um estudo. O li duas vezes naquele dia. No dia seguinte, mais umas cinco. E de lá pra cá sempre o pegava vez por outra. Agora não sei porque diabos cismei de memorizá-lo. Talvez seja para recitá-lo aos cães. Ah, era disso que falava. Bem, depois de gravar aquelas palavras, me restava treinar as pronúncias, tempo, tons, ritmo. Na falta de melhor interlocutor - ou provavelmente na procura de um interlocutor que não me interrompesse nem que me julgasse - chamei o cão. Russo é um cachorro burro. Um desses bichos estúpidos que é capaz de, no ato institivo de se coçar, morder o próprio corpo e rosnar para si mesmo. Uma verdadeira anta. Mas pesa a seu favor o fato de gostar de mim. Aliás, ele é tão burro que adora a pessoa que mais o castiga. Talvez seja o karma dele. Ou o meu. Quando meu sobrinho o trouxe para casa, seu primeiro ato foi demarcar território. Confundiu minha perna com o poste e parece que daquela data em diante, me tornou seu bicho de estimação. Diante disso, sabedor que ele jamais recusaria o meu chamado, disse ao vento seu nome. Não passou cinco segundo e lá estava ele, exultante, abanando o rabo como uma hélice em movimento. Solicitei a ele que ficasse quieto. Obviamente ele não entendeu e veio em minha direção. O chinelo foi em sua direção e ele perdeu um pouco a euforia. Então ele se deitou e ficou me olhando em clara chantagem. Melhor assim. Então comecei a recitar o texto. Ele, num gesto terno, pousou a cabeça sobre as patas dianteiras e passou a me olhar. Em determinamos momentos, como se quisesse me agradar, levantava uma ou outra orelha, como se estivesse prestando atenção no que eu dizia. Virava a cabeça em minha direção e, se soubesse sorrir, estou certo que esboçaria um sorriso. Cachorro puxa-saco! Alguns minutos depois, senti sua expressão mudar. Eu lhe falava, gesticulava de acordo com a tensão do texto, ora aumentava, ora baixava o tom da voz, de acordo com a ira do eu lírico que ali eu representava. Agora ele me olhava com um olhar mais piedoso. Abaixava a cabeça entre as patas, olhava o chão, depois voltava a me olhar compadecido de meus atos. Não arredava pé do local, mas demonstrava já alguma impaciência com a situação. Creio que, se pensasse aquele bicho, estava pensando em me internar. Ou talvez da falta que eu faria uma vez que estivesse trancafiado num sanatório. Talvez o olhar de piedade nem fosse em virtude de minha pseudo loucura, mas de sua própria desventura, caso alguém me internasse. Seu dó seria de sua própria desventura. Eu continuava a recitar o poema. Por vezes ele olhava para fora do ambiente, como quem procura um abrigo ou uma saída. E eu seguia com o poema: Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais. Que nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste. Deixa-me só neste ermo agreste, alça teu vôo dessa porta. Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta. Aproveitando a deixa, ele se levantou e rapidamente foi-se. Eu lá fiquei hirto e sombrio. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 20:06 Só, como um barquinho que navega na imaginação inocente de uma criança, aperto compulsivamente as teclas numeradas do controle remoto e tenho a sensação invertida de controlar a TV. Só, como um jovem silencioso que confraterniza com amigos mil em algazarra, percebo o quanto sou diferente dos meus semelhantes e compreendo que sou uno, indivisível e tenho a sensação invertida de nunca estar só. Só, como um Deus que tudo sabe e tudo vê, uno e impotente, sem ter com quem dividir suas dúvidas e suas certezas, sinto a dor celestial de pensar em tudo, fazer tudo, ordenar tudo e tenho a sensação invertida de tudo poder. Só, como a insistente estrela da manhã que espera, em vão, a companhia do sol para a seu lado reinar e se vai tão logo Apolo surge no oriente, percebo que algumas pessoas me apagam e tenho a sensação invertida de ser estrela. Só, como o homem só que escreve à noite, releio o texto buscando nas palavras algum alento que preencha a noite - vida escura e só - e percebo nelas vidas diversas, diversos sentidos e paro com a sensação invertida de estar só. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 16:49 Claudio Justo O que esperar de um time, cujo treinador pensa que o gol é um detalhe? O que esperar de um time, que tem um treinador que acredita que ganhar jogando mal é um espetáculo? O que esperar de um time que possui um treinador que acha que a história não registra os times que jogam bem, mas apenas o campeões? Quando tinha treze ou quatorze anos, eu era zagueiro do Pompéia Futebol Clube, time amador de Belo Horizonte. Meu treinador era um jovem chamado Ricardo Ruella, que vivia envolvido com o esporte. Foi ele quem me ensinou tudo que sei sobre o ofício de ser zagueiro. Os treinos aconteciam aos sábados e, quando tinha, os jogos eram aos domingos. Certa vez, não me lebro o que ocasionou o comentário, ele nos disse: "time que tem medo de perder, não merece ganhar". E aquele foi um dos maiores ensinamentos que tive na vida. A nossa história no futebol é marcada pelo talento ofensivo. Vejam só nossos destaques nessa copa: o miolo de zagua e nosso goleiro. Nossa maior esperança, eleito duas vezes o melhor jogador do mundo, era obrigado a marca no meio do campo. Parreira conseguiu realizar o sonho dos maiores treinadores do futebol mundial: parar o Ronaldinho Gaúcho. Não Parreira, o gol não é só um detalhe. Ele é simplesmente o objetivo do jogo. A razão de ser do esporte mais visto no planeta. E nós, todos os brasileiros sabemos disso. Por isso pedíamos um time que atacasse. Por isso pedíamos um time que desse espetáculo. Ainda que esse time se abrisse na defesa e corresse o risco de tomar um gol. O risco faz parte do jogo e o objetivo é fazer mais gols que o adversário. Ao contrário do que você pensa, a história não é injusta e premia, SIM SENHOR, os times que encantam as platéias. Aliás, nunca se falou tanto do Carrossel Holandês, como nesta copa. A todo instante alguém tocava no baile que o time de Cruyff deu em nossa seleção, em 1974, mostrando que a história não é tão ingrata. Será que o senhor nunca ouviu falar da Hungria, de Puskas? Se não, te conto que, em 1954, nos enfiou quatro, fora o chocolate. A Seleção Brasileira de 1982 dispensa comentários né. Não chegou nem à final, mas é apontada por muitos como a mais genial de todos os tempos. Há também a Dinamáquina, que assombrou na primeira fase da copa de 90. Não passou disso, mas está gravada na história. Como podemos ver, a história reconhece o empenho dos grandes jogadores, como também reconhece o fracasso dos mais medíocres. E não tenha dúvidas, Parreira, o senhor estará na galeria do futebol, manchando nossa história de toques geniais. Jogar bonito é importante também, senhor destreinador. E é possível ganhar dando espetáculo. Os Bleus que nos digam, certo? Como faz bem ver o futebol organizado, buscando o gol. Foi doloroso, está dolorido, mas quer saber: Zizou, Henry e os azuis nos devolveram o orgulho de ver o futebol arte vencer. Nos devolveu o direito de bater no peito e dizer que somos uma pátria de chuteiras, e não 180 milhões de ignorantes. Agora nos faça um favor: saia à francesa! Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 20:37 Dentre todas as espécies que existem sobre a face da terra, a que mais me intriga é a espécie dos chatos. Sua vida se resume em dividir a chatice dele com todos que estão ao seu alcance. É uma parasita ao contrário, que não se satisfaz em ter chatice suficiente para ele e sua família, então busca um meio de propagar sua chatice. Geralmente os meios mais chatos. Estamos em época de Copa do Mundo, a festa do futebol mundial, evento de maior visibilidade no planta, que celebra o esporte mais popular do mundo. Período propício para nos livrarmos de nossa sisudez necessária do dia-a-dia e tirarmos férias daqueles notíciários deprimentes. Toda a programação da mídia está voltada para a disputa do futebol. Até aqueles jornalecos populares, que trazem diariamente uma desgraça na capa, está dando total cobertura à Copa. Aliás, até folheto de igreja fala por linhas tortas sobre o esporte bretão - dizem que um padre, lá pelas bandas de Roma, pediu para o papa abençoar a Azzurra. Então é isso, estou de férias das colunas de política, de polícia e de economia. Ninguém aguenta tanta merda, tantos dias no ano. A não ser o chato. É assim: O Brasil jogou mal contra a Croácia. O Ronaldo, isolado lá na frente, sem conseguir correr atrás da bola, batia papo com o goleiro. Ninguém acreditava mais em vitória e os menos chegados no esporte já cochilavam entre cornetas mudas. Até que o Kaká num chute mágico, acertou a bola no gol. Dizem os especialistas que, assim como homem gosta de cerveja e mulher gosta de dinheiro, bola gosta é de gol. Então, para se ver livre desses pernas-de-pau, a bola foi aninhar-se nas redes. Por essas mágicas do futebol, o Brasil ganhou o jogo. O pessimista se embebedou reclamando que o time é ruim. O otimista foi festejar, afinal, o importante é ganhar. O chato olhou os dois e saiu gritando que é um absurdo o país parar para ver o jogo, com tantas injustiças sociais acontecendo por aí. O Brasil jogou de novo. E novamente mal. Mas por capricho dos Deuses do Futebol, ganhou novamente. O pessimista se embebedou, desta vez certo que o time é péssimo. De tão bêbado cogita até torcer para a Argentina. O otimista caiu na farra tão bêbado quanto o pessimista, prevendo o hexacampeonato. O chato, sentou no sofá, ligou indignado a tv, viu que só se falava em copa do mundo, desligou a tv, foi à igreja, viu o sacerdote pedir uma oração para que o Ronaldo volte à sua forma física, voltou para casa e decidiu escrever uma carta a um jornal. E o chato do editor publicou. Advinha quem comprou o jornal? Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 18:21 ![]() Logo à frente estão as pedras em forma de pirâmide, amontoadas por algum rio que passou por ali. À sua frente, as admira uma roseira que traz consigo seu belo troféu escarlate e um riacho que talvez seja filho daquele que juntou as pedras de forma tão minuciosa. No bos que que as abriga, passeia a frágil mulher descalça, que ao vento demonstra total falta de pressa. De olhos fechados relembra os momentos da infância, quando, também descalça, ali brincava com a idosa senhora que a acompanhava. Ali corria, se molhava no riacho, voltava para a velha e se sentava sobre a grama que cobre o chão, para um descanso e um rápido lanche. Depois do lanche voltava à correria assustando borboletas coloridas que fugiam como flores aladas. Ela se divertia. Seguiam por todo o bosque assim. Paravam, descansavam, e voltavam ao caminho. A menina que agora caminha descalça, corria; a senhora que a acompanhava, seguia a passos breves que a outra agora imita. O caminho era anunciado pelo leito do riacho e, chegada a metade da tarde, antes de se porem no caminho de volta, sentavam-se ao pé do pequeno monte de pedras, nas rochas mais baixas. Ali sentiam o vento nas faces, viam o colorido das borboletas e ouviam a o sussuro do riacho e o canto dos pássaros em algazarra. Permaneciam assim até a hora da volta. Agora a mulher repete o gesto, descalça e a pequenos passos. À frente estão as pedras em forma de pirâmide, amontoadas por algum rio que passou por ali e a roseira que traz consigo o belo róseo troféu. Ela se senta ao pé da pirâmide, levanta suavemente a barra do discreto vestido azul, e ali sente na face a pouca brisa que resta na cidade que rodeia o antigo bosque. Tenta ouvir, entre buzinas e motores, o sussuro do rio e o alarido dos pássaros. Borboletas já não há. A mulher, então, abaixa a cabeça num gesto suave e estende a mão à roseira como se fossem irmãs. Por cima dos olhos dá uma olhada naquela singela presença entre pedras, fecha os olhos por um instante e, quase imperceptívelmente dá um sorriso confessando à planta que também trás na lembraça um trófeu escarlate. Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 14:54 Decidi que quero falar de sexo. Não meramente de sexo como muitos fazem por aí atrás de votos populares. Muito menos quebrar tabus ou escrever romances. Quero falar de forma menos pretenciosa, sem muito objetivo. Falar por falar... Começar um assunto desses é tão complicado quanto começar o ato sexual. É uma coisa meios instintiva, meio sem rumo. A preliminar do texto precisa ser tão boa quanto a preliminar do ato, que, em si, é parte do ato como um todo. Sempre que penso em escrever uma autobiografia, me pego pensando quando começa a minha história. Talvez no dia em que nasci, talvez no dia em que fui concebido, talvez, muito antes disso, quando começam as histórias de meus pais. Estas talvez comecem na história de meus avós e continuará assim até chegarmos no enigma da criação da vida. Assim também é uma noite de sexo. Noite, tarde, manhã ou até naquele intervalo entre a manhã e a tarde, hora de almoço, quando alguém está comendo... alguém! O sexo começa um pouco antes de si mesmo. Começa no convite para sair e ir em algum lugar. Há já a intenção de dar e comer. Sejamos francos: ainda que a oportunidade aconteça de forma inesperada, já saimos de casa preparados para a possibilidade do inesperado acontecer. Ou seja, o inesperado nem é tão inesperado assim. Talvez sejamos seres sexuais, principalmente na sociedade moderna, cada vez mais erotizada, com corpos à mostra e ferormônios (melhor seriam ferozmônios) à venda. O ato termina no gozo ou além dele. No carinho nos braços dos amantes, antes do inevitável sono. Na correria para a volta para casa, para encontrar o parceiro oficial. Na ligação do dia seguinte, para os mais românticos. Ou, em casos mais capitalistas, na contagem das notas que bancam o sexo pago. O certo é que a noite de sexo termina... O durante é que é o caso mais sério. Como, enfim, é fazer sexo? Um ato animal, sem muitos segredos, do qual só se deve deixar o corpo agir de forma instintiva? Ou um trabalho planejado, visando o gozo eterno, o orgasmo inalcançável que nos prometem os produtos eróticos mais modernos? Fazer sexo está virando uma coisa cada dia mais complicada. Quando era mais novo, acho que já contei aqui, sonhava em ser padre. Não daria certo, pois meu gosto pelas mulheres é, antes de uma afirmação de minha masculinidade ou opção sexual, uma herança genética dada pelo meu pai, que era um apreciador. Também não sabia o que era celibato ou volto de castidade. Sequer sabia o que era voto (e ainda tenho dúvidas se realmente sei o que é esse termo vago). Bem, o sonho, como tantos outros, caiu por terra e virei o que virei. Voltando a sexo, depois da revolução feminista, fazer sexo ficou uma coisa mais complicada. É necessário concentração, preparo espiritual, mentalização positiva e tesão, muito tesão. Hoje em dia não basta comer, tem que comer e convencer. Comer bem comido, literalmente lambendo os beiços. Acompanhe: nas preliminares é necessário uma sensibilidade de um cego, principalmente quando estamos trabalhando com as mãos. Você está deitado com sua parceira e naquele momento estão trocando carícias íntimas, metendo a mão onde é chamado. Nesse momento é necessário sentir a textura da pele, para saber onde apalpar melhor, onde poderá dar mais prazer. É necessário escutar as pistas que sua parceira vai dar, nos seus toques. Um gemido mais alto pode significar que é ali que ela quer. Ou simplesmente pode querer dizer um "tira a mão daí". Não importa! O que vale é saber que aquele lugar é diferente dos demais e com o tempo você descobrirá porque. Você passa um dedo sobre a entrada da cavidade vaginal e sua parceira dá um leve sussurro, sobe para a parte dos lábios e o sussuro aumenta e, ao chegar no clitóris, ela geme... É preciso perceber essas coisas acontecendo. Vá lá, ainda temos alguma percepção com os dedos. É um de nossos cinco sentidos. Mas quando estamos no ato sexual propriamente dito... Temos que sentir as mesmas coisas, mas com um dedo menos experiente. Os sons, os jeito de mexer, a virada dos olhos, o movimentos dos lábios que ora sem mordem, ora se abrem ou então se fecham. Tudo são pistas de como proceder na cama. Segurar seu orgasmo pode te transformar em Don Juan ou num simples tarado. O tempo que dura uma relação pode ser sinal de virilidade ou anormalidade... conviva com isso, amigo. Trepar é um ato científico... Rabiscado por Claudio Rabisque você também: 18:03 Depois de uns dias
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